terça-feira, 29 de novembro de 2016

"Eu olhei ao gigantesco terri que estava sentado junto a mim, e que tinha um perfume estranho, parecido ao de um osso em um zoológico que visitei uma vez, mas tratei de ver mais além dessa massa de músculos, dentes e pelos que me causava um temor instintivo. Fiz um pequeno esforço para olhá-lo de outra forma, como se ele fosse um bom amigo meu, e o consegui por uns segundos. Então senti que seu odor não era desagradável, e me lembrei de um querido cãozinho que tive faz muito tempo. Ele captou algo, porque se voltou para mim entregando-me todo seu afeto em um olhar luminoso e em sorriso muito suave, dando-me um delicado e carinhoso apertão na bochecha. Então compreendi uma vez mais que o amor supera todas as barreira externas e ilusórias que dividem os seres."

- Trecho de um pedacinho do terceiro livro de Ami, o menino das estrelas.

domingo, 13 de novembro de 2016

Liberdade é altruísmo

Olhou aqueles prédios, sobrados e casas, tão bem construídos, arquitetados e modernos, tão bem cercados. Cercados pois ainda existia alguém que cometia sequestros, agressões, homicídios e furtos. Cercados pois não era todo mundo que alimentava-se bem todos os dias. Cercados pois não era todo mundo que tinha oportunidade acadêmica de ir construir seu lugar, materialmente falando, vitorioso na vida. Cercados pois negro não é gente, é bandido. Cercados pois pobre não presta, não merece atenção. Cercados pois muitos pais e mães por aí andavam não agindo como pais, e acabavam com filhos que não sabiam agir como filhos e como muitas outras coisas. Cercados pois quem quer vai atrás do seu, meritocracia igual pra circunstâncias distintas. É, injusto, mas é o tal do “mas é assim mesmo, né?”, é o tal do conforme-se, é o tal do não se importe, não lute, não sinta empatia. Você não é gente, você é um número para os índices de pesquisas demográficas do governo.
É, os lares estavam cercados por altos e estéticos muros e portões. Mas se todos tivessem relevância um para o outro, como uma grande família planetária, se não houvesse quem passasse fome, frio, negligência, abandono ou solidão, não haveria egoísmo, não haveria medo - não haveria portões. Ninguém precisaria tirar nada que fosse de pessoa nenhuma, todos teriam, porque todos seriam importantes. O mundo evolui e modifica-se apenas com atitudes de seres humanos. E ser alguém humano não é fácil, de fato, é compreendível ver aqueles que não tem coragem, fé ou compaixão. Por que tem que ser de verdade, tem que ser transparente, tem que acreditar nas possibilidades do tamanho que o Universo tem, tem que enxergar naturalmente a função e importância da existência de cada indivíduo, e tem que lembrar que há um Coração batendo no seu peito, pra ser humano. Pois quando você enxerga a existência do próprio Coração, compreende que aquele cara ali da praça também têm um, que precisa evoluir e aprender o Amor como você. Mas quem quer sair por aí sendo mal interpretado ou criticado por pensar no bem comum, na sensatez e no Amor fraternal sem a necessidade de reciprocidade, não é? É tão mais cômodo pensar apenas naqueles de seu âmbito pessoal (ás vezes nem isso) e naquela realidade vivida apenas dentro das paredes da própria casa. É tão mais cômodo desconfiar, dizer que tais coisas relacionadas a evolução e Bondade não existem, dizer que não dá pra abraçar o mundo… Quando no fim das contas, nem se trata de abraçar o mundo, mas sim de sê-lo, se trata apenas de adquirir, não uma ingênua, mas uma madura consciência social.
Mas a gente acha que isso é perca de tempo e deve dar trabalho demais.
O que é bobeira.
No fim das contas só se trata de dizer, e mostrar, para seus familiares que você os ama. No fim das contas só se trata de dispor seu tempo por quem você pode ser útil mesmo sem ter coisa alguma em troca além da satisfação de ter tornado mais ativa e acessível sua utilidade e doação. No fim das contas só se trata de não menosprezar ninguém. No fim das contas só se trata de não se achar tão magnífico, inteligente, único e importante demais pra bater um papo com aquela pessoa na sua turma que veio de outra cidade. É quando, ao todo, só se trata de aceitar e gostar de si mesmo sem eufemismos, ilusões ou prepotências e alardes.
Quando no fim das contas só se trata de amar.
Amar.
Sorriu torto, olhando a parede branca. Que lástima. Ainda há quem prefira agir como um número de índices de IDH.
Ainda saía nas ruas e enxergava muros e portões.