domingo, 11 de junho de 2017

Por mais amores sweater weather.

Começou a notar como andavam os amores mundo afora.
Muito amor ao vestuário que o namorado ou namorada tinham.
Muito amor ao nome de família e o status que isso trazia.
Muito amor às noitadas regadas à álcool com aquela turma mais cool.
Muito amor aos donos dos perfis onde as fotos tinham muita repercussão e reação sociais, os tais likes - que agora já podiam ser configurados em "uau", até em "amei". Amei.
Muito amor por quem amava (não, não desse jeito bom, mas com idolatria) o próprio corpo, sempre expondo poses e peças de roupa que valorizavam o mesmo, nas fotos, no dia a dia.
Muito amor imediatista. 
Amor fácil. Amor gratuito. Paixão sem conteúdo mental. Paixão pelo lifestyle do que o outro aparenta ter, ou têm, de fato.
E muito medo de sentir que se pode sentir amor por uma pessoa só.
Amor sem olhar calmo.
Amor sem olhar os projetos a longo prazo do outro.
Amor sem olhar as possibilidades de evolução e transformação individual.
Amor estático, amor pequeno. Amor, não jovial -  sincero, leve, alegre, vivo - mas adolescente. Isso englobava algumas pessoas com mais de 40 primaveras também. 
Começou a pensar nos amores gostosos. 
Amor com presentes autênticos, incomuns, determinados não por etiquetas, mas por conversas. Presentes pessoais.
Amor sem fotos com o amado nas redes sociais todo fim de semana com longos textos.
Amor presente, mentalmente, fisicamente, amor sem ansiedade.
Amor honesto, amor que também sabe ser discreto.
Amor sem necessidade de se autoafirmar.
Amor que simplesmente é.
Amor que envolve duas pessoas que são elas mesmas o tempo todo.
Amor com segurança emocional individual.
Amor com generosidade, amor que não pensa na necessidade de recíproca pra sentir vontade de dar seu melhor lado. Amor que quer ser uma pessoa boa por princípios, por si mesmo, não por vanglória, não por moralidade, não por cobrança alheia. 
Amor que  também sabe ser fraternal por quem se sente desejo.
Amor altruísta.
Amor que deixa a si mesmo e o outro livres, amor que entende que ficar junto, que se mesclar com outro alguém, não tem a ver com limites, mas com expansão.
Amor que ama que o outro ame cozinhar, jogar tênis, estudar. Amor que ame que o outro tenha coisas que ele ama na vida.
Amor que não se resume a momentos dentro de um quarto, em cima de um colchão (aliás, por que criar determinados momentos apenas no quarto?).
Amor que ouve o que não é falado, porque conhece o outro. Suas reações, seu coração.
Amor que se sente feliz em conhecer os amigos e amigas de quem ama. Amor que mistura os amigos dos dois e cria algo gostoso.
Amor que gosta de arquitetura, gastronomia, artes.
Amor que ama as coisas do mundo, mesmo amando uma pessoa, mesmo amando alguém.
Amor que compra flores. Ou chocolates. Ou flores e chocolates.
Amor que tem identidade individual mesmo estando apaixonado.
Amor que divide amores com quem ama.
Amor que acha fidelidade natural, amor que não sabe ser amor sem fidelidade.
Amor que não sente ânsia descontrolada em saciar vontades físicas sem filtro e sem seleção alguma. Amor que se ocupa com si, com os amigos, com a família, amor que namora a vida e os próprios sonhos e objetivos quando está solteiro - amor que sabe dosar casualidade, caso ela exista.
Amor que faz cafuné.
Amor que faz carinho nos dedos.
Amor que confia.
Amor que ri das manias peculiares do outro, amor que percebe as manias do outro.
Amor que se mostra emocionalmente, amor que é transparente.
Amor que sabe dizer que ama sem usar os lábios e a própria voz.
Amor que tem senso de humor. Sempre. Quase sempre.
Amor que faz café. Ou cappuccino. 
Amor que não tem medo de novidades.
Amor que tem medo do desconhecido, mas se permite conhecê-lo.
Amor que gosta de sentir o cheiro do outro. E demonstra isso. Olha, chega perto. Bem perto.
Amor que beija gostosamente o pescoço. Demoradamente.
Amor criativo.
Amor que aprecia algo mais elaborado, ás vezes luxuoso, mas que sabe ser amor e ser feliz diante de programas singelos e aconchegantes. Sabe o valor de todas as coisas.
Amor que não desmerece aquilo que não lhe é familiar.
Amor de se enrolar no cobertor e olhar o céu a noite, na companhia de uma garrafa térmica.
Amor que independe de padrões sociais e conceitos gerais de o que é um relacionamento e de como funciona, para namorar, para cruzar seu caminho com o caminho de outra pessoa.
Amor que entende que a vida é composta por ciclos. Que começos são naturais, que términos também.
Amor que não depende de cor, etnia, classe social, distância.
Amor que só depende de quem ama, pra ser amor.
Amor em que, nos dias frios, se queira guardar as mãos da pessoa amada nos bolsos do próprio suéter.

The Neighbourhood - Sweater Weather

sábado, 10 de junho de 2017

Sobre aceitar a própria chatice

Ela se incomodava quando não sentia que passava calma para os outros.
Se incomodava quando sentia que não se sentia bem e por isso deixava de passar sentimentos bons para aqueles que estavam por perto.
Se incomodava quando passava por algum dia de confusão de conceitos pessoais e expressava essa confusão para outra pessoa.
Se incomodava quando se notava dispersa em algum diálogo.
Se incomodava quando preferia o silêncio mas acabava falando. E, falando, dizia coisas não tão fiéis à ela mesma, mas sim efêmeras, sem credibilidade, já que eram apenas falas daquele determinado momento, passageiro, pequeno.
Se incomodava quando não via mais virtudes que características não tão boas nas pessoas. Aliás, ver virtudes nas pessoas não depende delas, depende dos olhos de quem vê. E ela queria ter bons olhos.
Se incomodava quando não estava totalmente presente mentalmente quando estava fisicamente com alguém. Com amigos, com a família, com ele.
Se incomodava quando não tirava uma nota melhor no simulado. Se pressionava. E, em partes, com razão.
Se incomodava quando não sentia equilíbrio na própria conduta.
Se incomodava quando não cumpria as proposições do dia, se incomodava quando não era, na sua máxima potencialidade, produtiva.
Se incomodava quando ficava ansiosa e não conseguia dominar com prontidão essa sensação, para voltar ao momento que estava de fato vivendo.
Se incomodava com si mesma.
Começou a concluir que se incomodar com suas falhas atrapalhava mais que as falhas em si.
Até que um dia começou a perceber que, se ela sabia dar tanta tolerância, colo e paciência para aqueles que moravam no seu cotidiano, podia incluir a si mesma também.
A família, os amigos e qualquer pessoa que morasse dentro de seu peito não iam deixar de sentir carinho por ela se ela fosse, em uma não tão bonita vertente, humana, um dia ou outro.
E ela também não deixaria.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O que aprendi com as rosas.

Li uma vez que, em um certo momento, Buda disse que quando gostamos de uma flor, a arrancamos. E que... Quando amamos uma flor, a regamos todos os dias. Disse, ele, que quem entendia isso, entendia a vida.
Tudo bem. Bonito, verdadeiro.
Aí, um tempo depois dessa leitura, me vi num local bom. Bom. Sem ilusões, sem ardilosidade, sem nenhuma intenção além da que era honestamente expressada. Local bom, era local sem segundas intenções. Local com pessoas boas - gente do bem. Gente que conhecia ciências. Matemática, psicologia, geografia, dança, medicina, engenharias, literatura, física quântica, história... Gente que conhecia características admiráveis, ouso dizer que exemplares, de culturas distintas, e diversas, mundo afora. Gente que conhecia alguns estudiosos, alguns pensadores... Einstein, Confúcio, Jung.
Gente que conhecia Cristo, também Buda, aliás.
E vi uma rosa. Logo ali, na mesa de uma das salas do local. Branca. Linda.
Mas fiquei intrigada. Como poderiam eles, aquela gente, boa, que tinha acesso a tanta grandiosidade nos conhecimentos ensinados ali, apenas gostar de uma flor?
Como poderiam, eles, a terem arrancado?
Pois é.
Bagunçou, por um momento, ou dois, a minha clareza a respeito do local, das pessoas, da situação em si. Teriam eles cometido um erro, um descuido? Estaria eu ignorando alguma sabedoria que, na verdade, eles tinham e eu desconhecia?
Quis compreender. Questionei.
Fui até uma das salas onde pessoas de maior autoridade intelectual estavam. Eu sabia, confiava, que ali eu encontraria uma resposta para a dúvida.
Ao entrar, fui recepcionada por uma amiga, já madura, senhora, de pouco mais de cinquenta anos. Cabelos negros, olhar hospitaleiro, firme, fraternal. Transparente. De feição espontaneamente gentil. Muito suave.
Manifestei minha análise, minha falta de luz, ou seja, a não capacidade de encontrar razão, perante o que eu sentia pelo que vi.
Com naturalidade, calma e sem rodeios, ela começou a me contar... Que todas as coisas tem utilidade, e que a de uma flor é enfeitar, trazer beleza... Que as flores tem um tempo de vida efêmero, e que elas passam esse tempo com uma utilidade quase que máxima, quando postas em locais em que não estariam por natureza. Me contou que para as flores era uma honra poder estar em ambientes bons, com pessoas boas e além de tudo, sendo úteis ali. As flores... Era como se ficassem felizes por passar o seu curto tempo de vida, singelo, estando e sendo flores onde naturalmente flores não se fazem presentes para encantar quaisquer olhos.
Senti que uma vida na roseira podia parecer o melhor para uma rosa, mas na verdade a roseira também podia ser uma vida comum, em escalas humanas, quase que uma zona de conforto, para essa mesma, rosa.
Pensei em nós, pessoas. No quanto defendemos a agarramo-nos à nossa natureza, às nossas roseiras. Mesmo com tantos lugares e tantos caminhos precisando de quem sinta vontade de ser útil, precisando de quem se doe, de quem deixe o dia, a noite, um instante, que seja, mais bonito. Precisando de quem traga a própria beleza - a própria característica, pessoal, quase sempre interior, que lhe torna belo.
Pode ser a beleza do jeito que você é. Você pode ser lírio, ou girassol. Só precisa ser você. Só precisa reconhecer que não tem nada de errado em seguir a vida, talvez comum, que a sua versão de roseira te ofereça. Mas que você pode extrair, ser, mais do próprio potencial, se buscar existir em um lugar onde não haja ainda flor alguma.
Achei belíssimo.
A amiga, senhora, que com aquelas palavras, mostrou, na realidade, ter coração de moça - delicado, diligente e dócil - coincidentemente, chamava-se Rosa.
Compreendi, então, agora, quando me diziam que a natureza é perfeita. Ela, sem as faculdades mentais das quais nos orgulhamos tanto ter à nossa disposição, sabe mais que nós ser exemplo - absoluto - de altruísmo, de objetivo... De razão de existência.
As flores têm muito a ensinar. E, depois disso, sei que elas sempre estarão cumprindo seu papel e oferecendo, apresentando, inúmeros exemplos, pra qualquer um, sem seleção, sem fazer distinções, que queira aprender. E que o farão com toda a graça, respeito, generosidade, sutileza e perfeição, que só a natureza têm.
Ou melhor... Que, pelo menos, por hora, só a natureza É.