segunda-feira, 17 de abril de 2017
domingo, 16 de abril de 2017
Liberdade tem tudo a ver com (respectivamente) respeito e compreensão.
Se ela considerava até mesmo qualquer desconhecido merecedor de liberdade, imagina as pessoas por quem o seu coração batia.
domingo, 9 de abril de 2017
Pai que nunca se sentiu filho
Ele não teve riso leve, cumplicidade, gentileza, respeito, privacidade ou relações em que os outros o encontravam na metade do caminho.
Os pilares, os, eram carregados ambos, por ele.
Ele sempre teve que se preocupar em ser maduro.
Em ser completamente responsável por si, pela consequência de qualquer palavra, silêncio ou ação, na raça.
Em saber relevar.
Em motivar e cativar a si mesmo independente da opinião de seus familiares.
Em ser sensatez durante discussões.
Em aprender a orientar e aconselhar à si mesmo.
Em ter uma idade mental maior comparada à idade do corpo.
Em autoafirmar a própria existência e necessidades para não lhe faltar nada, para não esquecerem de serem justos, inclusivos, com ele.
Em deixar a inocência, de brincar e ser ele mesmo, num cantinho dentro de si reservado para, não muitas, selecionadas pessoas de luz.
Em, antes de absorver uma dura crítica sobre si e a ter como verdade, observar da boca de quem ela saía.
Em olhar com compreensão e fraternidade pra quem o machucava, fisicamente ou não, por não estar feliz consigo próprio.
Lembrava de situações assim desde os seus cinco anos.
Cresceu.
O corpo começou a aparentar a idade que a mente já tinha conquistado precocemente, mas sem deixar de acompanhar os novos aprendizados que moldavam sua fibra moral.
Estudou, passou no vestibular.
Fez, deliciosamente e absolutamente consensualmente, bagunça com algumas moças que também queriam bagunçar.
Se formou na faculdade.
Se apaixonou.
Estudou, prestou um concurso.
Perdoou sua família pela consciência que eles não tiveram (por serem humanos, como ele).
Foi aprovado no concurso na segunda vez que o prestou. E se tornou juiz no tribunal regional numa cidade linda, a mesma em que viu o mar pela primeira vez.
Casou com a metade do seu coração.
Teve uma festa de casamento maravilhosa, regada à bom gosto, boa música, e de salão cheio de amigos de alma. Sua noiva estava explodindo de felicidade, ambos estavam. Vitoriosos, caminhando e, agora, de alianças de ouro. Juntos.
Teve dificuldades emocionais em assistir alguns casos no trabalho. Chorou numa noite, refletiu sobre aquela situação.
Teve outros dias melhores.
Chegou em casa com a mesa posta com velas e um elegante jantar, e em seguida a esposa, maluca, apareceu correndo ao seu encontro, de moletom, rabo de cavalo e sorriso no rosto. E, tirando a parte do sorriso (já íntimo e freguês das feições do rosto dela), a cena foi o paradoxo mais coerente que ele já tinha visto. Soube que era pai de um neném que estava a caminho.
Tirou um aprendizado daquele dia, há um tempo atrás no trabalho, que o tinha feito chorar. Seguiu em frente, com mais compreensão.
Comprou roupinhas de bebê. Ficou espantado com os valores de carrinho e de berço, se incomodou. Mas, já babão, comprou sem dar prioridade para os preços.
O amor da sua vida trouxe pro mundo uma menininha, que tinha os pés parecidos com os dele, tinha também seu queixo e cor de cabelo. Já os olhos, escuros, como os da mãe.
Ela cresceu, mostrou ter senso de justiça como o pai, discrição na vida pessoal como a mãe e um senso de humor que, meu Deus, era só dela.
Na sua festa de quinze anos (que ela só ouviu do pai que aconteceria depois de uma manhã atolada de processos e, em seguida, uma noite bem dormida e um generoso café da manhã) manifestou sentimentos que comoveram o coração do seu gordinho. E de todos da festa. O juiz sabia que era uma pessoa cheia de características pra melhorar. Mas ele nunca soube de forma tão clara, como naquela noite, que estava indo bem como ser humano, como exemplo de marido, como pai. Antes da valsa que dançaram, em um discurso surpresa preparado por ela, a menina de olhos castanhos se referiu a ele como Lealdade, Generosidade, Paciência, Amizade, Disciplina, Respeito e Amor. Ele chorou, tentou disfarçar mas não teve por onde, se ele era tudo isso, então ele se viu pai de uma pequena mulher que era a Gratidão.
Fez uma segunda lua de mel com a esposa pra comemorar os vinte anos desde a noite de núpcias.
Levou os pais pra um cruzeiro na costa brasileira, eles ainda não tinha estado em alto mar, e adoraram as férias, divertiram-se.
Ao longo dos anos, viu-se reconhecido por uma reputação invejável no seu ramo profissional, sendo admirado por características como perspicácia, discernimento e incorruptibilidade.
Pouco antes dos sessenta, se permitiu fazer um trabalho voluntário durante uma semana de férias, plantando árvores e servindo sopa em uma periferia, seu amor o acompanhou. Foi indescritível.
Sentiu Deus. Conheceu com consciência e calma a existência inegável e inata da empatia e da bondade vivas dentro de seu peito.
Passou por um caso durante o trabalho que o fez lembrar dos radicais e pesados mal entendidos que já teve em casa, quando mais novo, sem que as recordações lhe causassem desconforto.
Ficou feliz com quem ele era, por ter construído-se, pela determinação que teve, pelas escolhas que fez e principalmente pelo que se propôs (des)aprender. Pelos erros que não repetiu, os de si mesmo e os que aprendeu com outros durante os anos de interações sociais e convívios. Não tinha acatado o papel que lhe foi dado pelos seus pais e irmãos mais velhos, acreditou em si mesmo, em sua individualidade, acreditou na possibilidade de haver uma vida diferente, um ele mesmo diferente, aceitou não ser vítima de uma medíocre e comum história de egoísmo dentro de casa, como tem milhões mundo afora (onde todos se acham muito únicos, sofredores e especiais).
Agradeceu a si mesmo por nunca ter negado o que a vida lhe trouxe e lhe exigiu, pois ele era um homem pleno, amava a família, que se sentia amada por ele em cada atitude, era leal aos seus princípios, era respeitável, humilde, presente e dedicado na carreira, tinha grandes amigos e uma vida social levada e vivida muito gostosamente. Provou durante sua caminhada emoções e sentimentos boníssimos, se sentia abençoado
Era verdadeiramente feliz, era peça rara por aí.
Não era um homem negligente. Nunca desistiu, nunca abandonou, nunca desprezou. Não teve preguiça de se adaptar à vida, de aprender a ser feliz, de aprender a amar. De assimilar a imensa alegria e valor que tem na vida de um indivíduo que entende, e doa, o altruísmo e a contemporização.
Faleceu aos 94, deixando saudade para amigos da vida pessoal e da belíssima, honrada, vida no Direito, sendo amado incondicionalmente pela esposa, pelos filhos (sim, ele ganhou um filho quando conheceu, e adorou conhecer, seu genro) e pelos três netos, é, ele tinha amado incondicionalmente.
Nenhuma falta dos outros justifica o que não somos. Ao menos no coração, na vida pessoal, bom, como seres humanos, a gente sempre pode, e vai ser, quem quisermos ser.
Os pilares, os, eram carregados ambos, por ele.
Ele sempre teve que se preocupar em ser maduro.
Em ser completamente responsável por si, pela consequência de qualquer palavra, silêncio ou ação, na raça.
Em saber relevar.
Em motivar e cativar a si mesmo independente da opinião de seus familiares.
Em ser sensatez durante discussões.
Em aprender a orientar e aconselhar à si mesmo.
Em ter uma idade mental maior comparada à idade do corpo.
Em autoafirmar a própria existência e necessidades para não lhe faltar nada, para não esquecerem de serem justos, inclusivos, com ele.
Em deixar a inocência, de brincar e ser ele mesmo, num cantinho dentro de si reservado para, não muitas, selecionadas pessoas de luz.
Em, antes de absorver uma dura crítica sobre si e a ter como verdade, observar da boca de quem ela saía.
Em olhar com compreensão e fraternidade pra quem o machucava, fisicamente ou não, por não estar feliz consigo próprio.
Lembrava de situações assim desde os seus cinco anos.
Cresceu.
O corpo começou a aparentar a idade que a mente já tinha conquistado precocemente, mas sem deixar de acompanhar os novos aprendizados que moldavam sua fibra moral.
Estudou, passou no vestibular.
Fez, deliciosamente e absolutamente consensualmente, bagunça com algumas moças que também queriam bagunçar.
Se formou na faculdade.
Se apaixonou.
Estudou, prestou um concurso.
Perdoou sua família pela consciência que eles não tiveram (por serem humanos, como ele).
Foi aprovado no concurso na segunda vez que o prestou. E se tornou juiz no tribunal regional numa cidade linda, a mesma em que viu o mar pela primeira vez.
Casou com a metade do seu coração.
Teve uma festa de casamento maravilhosa, regada à bom gosto, boa música, e de salão cheio de amigos de alma. Sua noiva estava explodindo de felicidade, ambos estavam. Vitoriosos, caminhando e, agora, de alianças de ouro. Juntos.
Teve dificuldades emocionais em assistir alguns casos no trabalho. Chorou numa noite, refletiu sobre aquela situação.
Teve outros dias melhores.
Chegou em casa com a mesa posta com velas e um elegante jantar, e em seguida a esposa, maluca, apareceu correndo ao seu encontro, de moletom, rabo de cavalo e sorriso no rosto. E, tirando a parte do sorriso (já íntimo e freguês das feições do rosto dela), a cena foi o paradoxo mais coerente que ele já tinha visto. Soube que era pai de um neném que estava a caminho.
Tirou um aprendizado daquele dia, há um tempo atrás no trabalho, que o tinha feito chorar. Seguiu em frente, com mais compreensão.
Comprou roupinhas de bebê. Ficou espantado com os valores de carrinho e de berço, se incomodou. Mas, já babão, comprou sem dar prioridade para os preços.
O amor da sua vida trouxe pro mundo uma menininha, que tinha os pés parecidos com os dele, tinha também seu queixo e cor de cabelo. Já os olhos, escuros, como os da mãe.
Ela cresceu, mostrou ter senso de justiça como o pai, discrição na vida pessoal como a mãe e um senso de humor que, meu Deus, era só dela.
Na sua festa de quinze anos (que ela só ouviu do pai que aconteceria depois de uma manhã atolada de processos e, em seguida, uma noite bem dormida e um generoso café da manhã) manifestou sentimentos que comoveram o coração do seu gordinho. E de todos da festa. O juiz sabia que era uma pessoa cheia de características pra melhorar. Mas ele nunca soube de forma tão clara, como naquela noite, que estava indo bem como ser humano, como exemplo de marido, como pai. Antes da valsa que dançaram, em um discurso surpresa preparado por ela, a menina de olhos castanhos se referiu a ele como Lealdade, Generosidade, Paciência, Amizade, Disciplina, Respeito e Amor. Ele chorou, tentou disfarçar mas não teve por onde, se ele era tudo isso, então ele se viu pai de uma pequena mulher que era a Gratidão.
Fez uma segunda lua de mel com a esposa pra comemorar os vinte anos desde a noite de núpcias.
Levou os pais pra um cruzeiro na costa brasileira, eles ainda não tinha estado em alto mar, e adoraram as férias, divertiram-se.
Ao longo dos anos, viu-se reconhecido por uma reputação invejável no seu ramo profissional, sendo admirado por características como perspicácia, discernimento e incorruptibilidade.
Pouco antes dos sessenta, se permitiu fazer um trabalho voluntário durante uma semana de férias, plantando árvores e servindo sopa em uma periferia, seu amor o acompanhou. Foi indescritível.
Sentiu Deus. Conheceu com consciência e calma a existência inegável e inata da empatia e da bondade vivas dentro de seu peito.
Passou por um caso durante o trabalho que o fez lembrar dos radicais e pesados mal entendidos que já teve em casa, quando mais novo, sem que as recordações lhe causassem desconforto.
Ficou feliz com quem ele era, por ter construído-se, pela determinação que teve, pelas escolhas que fez e principalmente pelo que se propôs (des)aprender. Pelos erros que não repetiu, os de si mesmo e os que aprendeu com outros durante os anos de interações sociais e convívios. Não tinha acatado o papel que lhe foi dado pelos seus pais e irmãos mais velhos, acreditou em si mesmo, em sua individualidade, acreditou na possibilidade de haver uma vida diferente, um ele mesmo diferente, aceitou não ser vítima de uma medíocre e comum história de egoísmo dentro de casa, como tem milhões mundo afora (onde todos se acham muito únicos, sofredores e especiais).
Agradeceu a si mesmo por nunca ter negado o que a vida lhe trouxe e lhe exigiu, pois ele era um homem pleno, amava a família, que se sentia amada por ele em cada atitude, era leal aos seus princípios, era respeitável, humilde, presente e dedicado na carreira, tinha grandes amigos e uma vida social levada e vivida muito gostosamente. Provou durante sua caminhada emoções e sentimentos boníssimos, se sentia abençoado
Era verdadeiramente feliz, era peça rara por aí.
Não era um homem negligente. Nunca desistiu, nunca abandonou, nunca desprezou. Não teve preguiça de se adaptar à vida, de aprender a ser feliz, de aprender a amar. De assimilar a imensa alegria e valor que tem na vida de um indivíduo que entende, e doa, o altruísmo e a contemporização.
Faleceu aos 94, deixando saudade para amigos da vida pessoal e da belíssima, honrada, vida no Direito, sendo amado incondicionalmente pela esposa, pelos filhos (sim, ele ganhou um filho quando conheceu, e adorou conhecer, seu genro) e pelos três netos, é, ele tinha amado incondicionalmente.
Nenhuma falta dos outros justifica o que não somos. Ao menos no coração, na vida pessoal, bom, como seres humanos, a gente sempre pode, e vai ser, quem quisermos ser.
sábado, 8 de abril de 2017
Última carta de uma cigana.
Nada do que eu fiz foi pra te magoar. Muita gente aí fala, e demais, sem saber. E eu sei que foram dizer maldizeres sobre minhas escolhas e minha vida também pra você, sei que eles sabem pouco sobre minha história e minhas histórias, mesmo ignorando isso na hora de emitir boatos. Mas você os ouve, pois não estou ai pra você saber a verdade, saberia só de olhar pra mim te olhando.
Eu sabia o tempo todo o que eu sentia e nunca duvidei de estar apaixonada por você, um segundo que fosse.
Quando ele me pediu em casamento e eu aceitei, sorri pra ele, da boca pra fora, não do peito pra dentro. Fiquei em pânico. Fui pro banho depois de dizer sim ao pedido, e debaixo do chuveiro fiquei apática, de boca fechada e coração gritando. Você me veio na cabeça instantaneamente, imediatamente.
Eu sabia que estava errando.
Eu sabia que estava sendo desleal ao meu sentimento, a mim mesma.
Desleal a você, que eu soube, desde aquela viagem, que eu o amo tanto, e que é recíproco, e que a gente nem precisava expressamente dizer um pro outro pra saber. Você me ensinou o quanto palavras podem ser dispensáveis.
Eu sabia que ia tirar a mim mesma dos trilhos certos se fosse morar com ele.
E mesmo tendo tão claro o meu amor, que não era por aquele que se ajoelhou pra mim, eu não consegui recusar. Estava sozinha, sem o apoio dos meus pais, como é desde que sou pequena de tamanho e de sentimentos maduros, e isso afetou meu juízo. Aprendi nessa experiência que devo fazer somente aquilo que eu faria se me sentisse completamente amparada pelos meus pais, isso me devolve à razão, fico mais sensata e coerente com os desejos que brotam dentro de mim, compreendo se realmente quero algo ou se na verdade era uma busca pra compensar algum vazio, pensar assim é como reencontrar minha identidade.
Eu sinto, meu amor, que pelo que eu manifesto sobre minhas ideias sobre o mundo e seus conceitos, as pessoas me superestimam e esquecem-se da minha oscilação entre sabedoria e humanidade, frágil, que pede colo, ombro amigo e conselhos fraternais.
Você foi a única alma além da minha que enxergou minha vulnerabilidade sem condenações ou mal entendidos, que compreendeu que minha força não era sinônimo de autossuficiência, mas sim apenas momentos de força, de garra, coragem. Momentos.
Quando você me abraça me sinto inteira, sem cacos, de alma não aos pedaços, mas sendo totalidade, sendo pura luz.
E isso é um absurdo. Meu coração pode ter a idade da minha existência mas meu corpo e mente desta vida são muito novos pra não morrer de saudade de te ter por perto, nem que seja pra conversar contigo pelos olhos, como a gente sabe tão naturalmente, tão bem, fazer. Não posso hoje nem olhar braba pra você por saber que você está brabo comigo e preferiu sumir ao me falar. É ridículo, pois apesar desse pesar que sentir a sua falta me traz, eu tenho consciência suficiente pra saber que agora não é lugar nem hora pra gente viver juntos dentro do nosso abraço que, de dois, vai pra o quê se torna apenas um.
Eu entendo que o Universo é justo, e confio nele pra saber que se nossos corações e desejos diante da Vida estiverem ainda condizentes a gente vai se encontrar, de forma bem mais propícia e simples, sem limitações ou dependências externas para os nossos caminhos se cruzarem.
Mas até lá, meu amor, saudade.
Eu, que sou cigana e sou apaixonada pelo riso e pela dança de alma nua, expelindo e expressando prazer e sentimento pra qualquer amigo que esteja tocando o pandeiro ou feirante que caminhe pelas ruas, perdi a vontade de banalizar o acontecimento de um beijo, ou a intenção de um olhar. Não banalizo mais, nem pra fazer graça ou charme.
Graça? Não há mais graça em brincar depois de conhecer alguém que se leva a sério e leva a gente a sério. Alguém que quer da Vida e de si mesmo os mesmos desejos que existem comigo em meu coração. Que coisa você fez. Quem diria que tanta calma e respeito podiam virar tudo de cabeça pra baixo no mundo de alguém.
Agora não danço mais, não beijo sem sentir amor e não abraço qualquer amigo que não esteja entre os amigos que são meus irmãos.
Não sei mais se sou ainda cigana, se cigana é aquela que dança, faz joguinho, rouba e encanta rindo, emanando leveza e ar maroto sem seleção a quem, se só sei ser cigana agora com você, se quero ser cigana só para você. De moça que um dia foi cigana, despreocupada e rindo a toa, achando graça em seduzir, virei mulher.
Ah Deus, energia essa a sua, tão sua... Poderosa, doando calor, pertencente a quem você é. Energia que invade sem ser invasiva, sendo a própria intimidade quando perto da minha, que emana de dentro pra fora pra te encontrar. Olha só o que você fez e que, gostosamente, eu te deixei fazer... Trouxe luz pro melhor pedaço de mim.
Eu sabia o tempo todo o que eu sentia e nunca duvidei de estar apaixonada por você, um segundo que fosse.
Quando ele me pediu em casamento e eu aceitei, sorri pra ele, da boca pra fora, não do peito pra dentro. Fiquei em pânico. Fui pro banho depois de dizer sim ao pedido, e debaixo do chuveiro fiquei apática, de boca fechada e coração gritando. Você me veio na cabeça instantaneamente, imediatamente.
Eu sabia que estava errando.
Eu sabia que estava sendo desleal ao meu sentimento, a mim mesma.
Desleal a você, que eu soube, desde aquela viagem, que eu o amo tanto, e que é recíproco, e que a gente nem precisava expressamente dizer um pro outro pra saber. Você me ensinou o quanto palavras podem ser dispensáveis.
Eu sabia que ia tirar a mim mesma dos trilhos certos se fosse morar com ele.
E mesmo tendo tão claro o meu amor, que não era por aquele que se ajoelhou pra mim, eu não consegui recusar. Estava sozinha, sem o apoio dos meus pais, como é desde que sou pequena de tamanho e de sentimentos maduros, e isso afetou meu juízo. Aprendi nessa experiência que devo fazer somente aquilo que eu faria se me sentisse completamente amparada pelos meus pais, isso me devolve à razão, fico mais sensata e coerente com os desejos que brotam dentro de mim, compreendo se realmente quero algo ou se na verdade era uma busca pra compensar algum vazio, pensar assim é como reencontrar minha identidade.
Eu sinto, meu amor, que pelo que eu manifesto sobre minhas ideias sobre o mundo e seus conceitos, as pessoas me superestimam e esquecem-se da minha oscilação entre sabedoria e humanidade, frágil, que pede colo, ombro amigo e conselhos fraternais.
Você foi a única alma além da minha que enxergou minha vulnerabilidade sem condenações ou mal entendidos, que compreendeu que minha força não era sinônimo de autossuficiência, mas sim apenas momentos de força, de garra, coragem. Momentos.
Quando você me abraça me sinto inteira, sem cacos, de alma não aos pedaços, mas sendo totalidade, sendo pura luz.
E isso é um absurdo. Meu coração pode ter a idade da minha existência mas meu corpo e mente desta vida são muito novos pra não morrer de saudade de te ter por perto, nem que seja pra conversar contigo pelos olhos, como a gente sabe tão naturalmente, tão bem, fazer. Não posso hoje nem olhar braba pra você por saber que você está brabo comigo e preferiu sumir ao me falar. É ridículo, pois apesar desse pesar que sentir a sua falta me traz, eu tenho consciência suficiente pra saber que agora não é lugar nem hora pra gente viver juntos dentro do nosso abraço que, de dois, vai pra o quê se torna apenas um.
Eu entendo que o Universo é justo, e confio nele pra saber que se nossos corações e desejos diante da Vida estiverem ainda condizentes a gente vai se encontrar, de forma bem mais propícia e simples, sem limitações ou dependências externas para os nossos caminhos se cruzarem.
Mas até lá, meu amor, saudade.
Eu, que sou cigana e sou apaixonada pelo riso e pela dança de alma nua, expelindo e expressando prazer e sentimento pra qualquer amigo que esteja tocando o pandeiro ou feirante que caminhe pelas ruas, perdi a vontade de banalizar o acontecimento de um beijo, ou a intenção de um olhar. Não banalizo mais, nem pra fazer graça ou charme.
Graça? Não há mais graça em brincar depois de conhecer alguém que se leva a sério e leva a gente a sério. Alguém que quer da Vida e de si mesmo os mesmos desejos que existem comigo em meu coração. Que coisa você fez. Quem diria que tanta calma e respeito podiam virar tudo de cabeça pra baixo no mundo de alguém.
Agora não danço mais, não beijo sem sentir amor e não abraço qualquer amigo que não esteja entre os amigos que são meus irmãos.
Não sei mais se sou ainda cigana, se cigana é aquela que dança, faz joguinho, rouba e encanta rindo, emanando leveza e ar maroto sem seleção a quem, se só sei ser cigana agora com você, se quero ser cigana só para você. De moça que um dia foi cigana, despreocupada e rindo a toa, achando graça em seduzir, virei mulher.
Ah Deus, energia essa a sua, tão sua... Poderosa, doando calor, pertencente a quem você é. Energia que invade sem ser invasiva, sendo a própria intimidade quando perto da minha, que emana de dentro pra fora pra te encontrar. Olha só o que você fez e que, gostosamente, eu te deixei fazer... Trouxe luz pro melhor pedaço de mim.
Reflexão das seis da manhã (Rio Verde, rio de janeiro)
O (único) fardo de conhecer o Amor é saber esperá-lo, sem sentir tão imensas saudades e confiando no Tempo, que coloca tudo da maneira que tem que acontecer, e ser, no caminho de cada filho de Deus.
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