quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Ingenuidade e alienação adolescente

Lembrei da minha adolescência.
Da primeira balada, do primeiro encontro no cinema, das amizades simples e leves, dos trabalhos em grupo, do primeiro namoro, dos sentimentos de que tudo era novo, da emoção, por tudo ser novo. Lembrei dos professores e das aulas, lá, naquele colégio. Lembrei das músicas que ouvia e sentia como se fossem parte de mim, das roupas que vestia, dos lugares que frequentava e das pessoas que faziam parte dos meus dias, nunca achei que elas fariam parte da vida só naqueles instantes, parecia tudo permanente. Tanto já estava a mudar.
Havia, nesse tempo, uma irmã a menos. Outra configuração familiar. Outra energia em casa. Outro dia a dia. Outros planos. Outros e outras tantas coisas.
Eu ia ser advogada, e, depois, promotora de justiça. Eu ia casar com aquele namorado. Ia continuar ali, a morar na minha cidade natal. Ia seguir com alguns mesmos pensamentos. Mas ia ser feliz pra sempre.
Engraçado olhar como eu pensava antes, porque, mesmo pensando tudo isso, mesmo tendo certeza absoluta naquele tempo que aquele ia ser o meu final feliz, eu nem sabia o que era felicidade.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Sobre realidades e maturidade

Pensou na cidade em que queria morar.
Pensou nas pessoas, no convívio de que sentia saudades.
Pensou nos restaurantes e cafés.
Pensou na rotina que desejava ter, nos lugares que fariam parte dela.
Pensou na energia que vibrava lá e se sintonizava em harmonia com quem ela era e com os objetivos e ambições que carregava no peito.
Pensou na acessibilidade que lhe seria dada, a tantas coisas, estando lá.
Pensou no quanto fazia sentido, ela e lá.
Ela lá.
Pensou, pensou, até que não pensou mais.
Pra um dia estar lá, ela precisava viver no agora.
E o agora, não era lá, era ali.

domingo, 6 de maio de 2018

Meu coração também é morada

Do outro lado do rio, olhou as montanhas ao longe, que não estavam assim tão longe. E se sentou na areia úmida e escura. Grãos quase pretos. E muito finos, então a aparência da superfície sugeria que, essa, era macia.
Fechou os olhos. Fazendo isso, olhou pra ele.
Como um flash, se lembrou dele, sentiu ele por perto. Mas apenas por alguns segundos, como se encostasse a cabeça em seu peito, num abraço.
O objetivo dela ao fechar os olhos era olhar para si, mas a imagem e a energia dele acabaram aparecendo. Devia ser porque sentia saudades dele as vezes.
Queria olhar para si porque não se sentia calma, queria se recolher em meditação.
Com o que houve, descobriu que, pelo jeito, ele tinha muita coisa a ver com a calma dela, isso se ele não a fosse, por alguma razão. É que, bem,  o objetivo da introspecção foi buscar calma. Ela encontrou ele. Pois é.
O que traz calma pra o que se carrega no peito é sempre o que está do lado de dentro dele também.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Nova utilidade de guarda roupas

Afirmou algumas incertezas para sua amiga, como se fossem certezas.
Respondeu algumas perguntas, sobre a própria vida afetiva, com a pressa que não se deve ter pra falar de amor.
Sentiu-se mal, depois.
Agora ela, a amiga, teria como verdades palavras que foram resultados de uma tentativa de fuga, só pra dizer qualquer coisa, só pra encerrar o assunto, só pra não se dizer que, na verdade, tem coisa que não se sabe, ao invés de ter feito o que fez, ter afirmado saber.
Pois, na verdade, algumas coisas, ela não sabia.
Sabia quem lhe fazia bem, sabia quem queria por perto. Sabia quem estava por perto naquele momento atual, sabia que tinha um carinho tão gostoso e tão sincero por esse que já estava por perto.
Sabia que esse que estava por perto fazia um bem enorme. Sabia que gostar dele fazia bem, pra ela.
Mas sobre o futuro, não sabia muito. E não sentia medo por isso. Ainda assim, parecia estar sendo cobrado, pela amiga, que ela se sentisse preocupada, que ela tivesse respostas.
Respostas pessoais. Respostas sobre sentimentos. E, acima de tudo, respostas com lógica e justificativas.
Invasivo.
E, bom, impossível. Sentimentos e justificativas. Parecia um pedido de distorção daquilo que é o que é só por ser. Daquilo que era o que era por ter uma intenção só.
Os assuntos do coração podem ser abstratos, em alguns instantes, sobre alguns assuntos. Ninguém mais que cada um, que si próprio, vai entender com tanta fidelidade à natureza do sentimento. Mesmo que seja alguém que tem por você querer bem, mesmo uma amiga. E, bom,  o respeito que se tem sobre alguns sentimentos, não é a maioria das pessoas do lado de fora do seu peito que vai saber ter, não de jeito semelhante ao que você próprio tem. E claro que isso não é por mal.
Suspirou, mais tarde, já sozinha, se lembrando do diálogo com a amiga. Olhou para a parede ao lado da cama, mas não estava olhando pra nada.
Assim, soube.
Algumas incertezas, não se deve contar ter.
Incertezas são como neblina. Visão embaçada. Outrossim, como a bagunça de um quarto. E, quando vem uma visita, o melhor é sempre guardar a bagunça. Fechada, dentro de um guarda roupas. Pois é. Vai que ela pergunta  para aquele ou aquela, dono do quarto, o que são, e porque o são, as coisas espalhadas no chão.