domingo, 25 de fevereiro de 2018

Nova utilidade de guarda roupas

Afirmou algumas incertezas para sua amiga, como se fossem certezas.
Respondeu algumas perguntas, sobre a própria vida afetiva, com a pressa que não se deve ter pra falar de amor.
Sentiu-se mal, depois.
Agora ela, a amiga, teria como verdades palavras que foram resultados de uma tentativa de fuga, só pra dizer qualquer coisa, só pra encerrar o assunto, só pra não se dizer que, na verdade, tem coisa que não se sabe, ao invés de ter feito o que fez, ter afirmado saber.
Pois, na verdade, algumas coisas, ela não sabia.
Sabia quem lhe fazia bem, sabia quem queria por perto. Sabia quem estava por perto naquele momento atual, sabia que tinha um carinho tão gostoso e tão sincero por esse que já estava por perto.
Sabia que esse que estava por perto fazia um bem enorme. Sabia que gostar dele fazia bem, pra ela.
Mas sobre o futuro, não sabia muito. E não sentia medo por isso. Ainda assim, parecia estar sendo cobrado, pela amiga, que ela se sentisse preocupada, que ela tivesse respostas.
Respostas pessoais. Respostas sobre sentimentos. E, acima de tudo, respostas com lógica e justificativas.
Invasivo.
E, bom, impossível. Sentimentos e justificativas. Parecia um pedido de distorção daquilo que é o que é só por ser. Daquilo que era o que era por ter uma intenção só.
Os assuntos do coração podem ser abstratos, em alguns instantes, sobre alguns assuntos. Ninguém mais que cada um, que si próprio, vai entender com tanta fidelidade à natureza do sentimento. Mesmo que seja alguém que tem por você querer bem, mesmo uma amiga. E, bom,  o respeito que se tem sobre alguns sentimentos, não é a maioria das pessoas do lado de fora do seu peito que vai saber ter, não de jeito semelhante ao que você próprio tem. E claro que isso não é por mal.
Suspirou, mais tarde, já sozinha, se lembrando do diálogo com a amiga. Olhou para a parede ao lado da cama, mas não estava olhando pra nada.
Assim, soube.
Algumas incertezas, não se deve contar ter.
Incertezas são como neblina. Visão embaçada. Outrossim, como a bagunça de um quarto. E, quando vem uma visita, o melhor é sempre guardar a bagunça. Fechada, dentro de um guarda roupas. Pois é. Vai que ela pergunta  para aquele ou aquela, dono do quarto, o que são, e porque o são, as coisas espalhadas no chão.

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