Pensava, deitada na rede do quiosque daquela praia perto de casa.
Um mar de água, um mar de gente, mas estava ali, ela, sozinha.
Durante vários momentos em seu dia, tinha um clique. Vários cliques. Boas ideias, boas sacadas. Ideias que ela tinha vontade de transformar em palavras, em legado. Pessoal, singelo, apenas pra deixar por aí num cantinho sem holofotes. Pra que, um dia ou outro, alguém, que não fosse tão apegado ao relógio e ao dinheiro, dispusesse o tempo de seu próprio olhar. Alguém que fosse ler por motivo nenhum, além de querer se conhecer o que ainda não se conhece e vontade de ver o que ainda não se viu. Não por ser um conto ou crônica de um dos livros dos dez mais vendidos na Veja, não por a vizinha que tem status social ter comentado sobre a autoria. Só por ler, por estar ali. Oportuno. Só por ser ele com si mesmo. E, aí, que deixasse aquilo entrar em quem se era. O intuito era deixar palavras em que, ao sair da leitura, se saísse carregando alguma coisa bonita a mais no peito. Mas, ainda assim, legado. Algo pra deixar, depois que ela e o corpo fossem embora desse mundo.
A vocação pra escrever era inegável, o reconhecimento era unânime, e tal, unanimidade, não incluía cinco, seis ou dez corações. Eram realmente muitos.
Mas, cursar jornalismo? Letras? Comunicação Social?
Que credibilidade tem um escritor que só escreve? Ele, por si próprio é uma metalinguagem. Um escritor que fala sobre sua vida de escritor. Sobre o que vê por aí, em sua esfera cotidiana. De escritor.
Que bobagem.
terça-feira, 22 de agosto de 2017
sábado, 19 de agosto de 2017
Yesterday
Olhava pra mim e soltava meus cabelos do coque eu eu tinha feito de manhã, sem dizer nada.
Me enrolava dentro dos meus próprios casacos. Aquecia, com o seu abraço e braços em volta dos meus ombros.
Me chamava de pintura. De "minha estudona", de magrela.
Elogiava minha cintura, contornava minha silhueta, sem nenhuma pressa.
Dizia sobre o monstro enorme na minha frente chamado Vida, e da minha postura frontal com ele "você chega, toda pequenininha, toda magrinha, e diz: sai da minha frente", admirava. A coragem , a persistência. Não tinha o menor interesse em esconder isso.
Quando eu chegava pertinho pra o acordar, sentada na beira da cama, abraçava minhas pernas e dava beijos nas minhas coxas e joelhos, resmungava qualquer coisa, continuava dormindo sem desfazer o abraço.
Acordava devagar, sutilmente mau humorado, mas não por mais de dez ou quinze minutos.
Cantava Beatles no chuveiro.
Me dizia muito sobre vencer, queria me ver vencer. Você é vencedor, acadêmico.
Falava com um instinto protetor imenso sobre sua família, bonito de ver.
E, mesmo com isso tudo, era intolerante. Era cético.
Aliás, o cético mais lindo do mundo.
Trazia uma certa autoridade, uma inflexibilidade. Engraçado.
Contraditório, pra alguém de coração tão quente. No mínimo divertido era, observar você.
Eu costumava ouvir de você, que você poderia ser o meu domingo. Meu day off, meu dia de descanso, minha calma.
Mas ah, a segunda-feira chegou.
A zona de conforto é quentinha, é segura. Como a rotina, como os dias úteis da semana.
Nem todo mundo está pronto pra ser o domingo de alguém.
Você preferiu a lógica, o palpável, o justificável, o raciocínio, a competição, à razão, à leveza, ao sentimento. Ao que simplesmente é, por ser simples. Por ser puro, sem as manchas dos medos, na realidade irrelevantes, que a sociedade ensina pra gente - e que, infelizmente, muitas vezes a gente aprende.
E você ficou com ela. Com a lógica.
Mas, que pena, para o que um dia foi nós dois, só com ela.
Me enrolava dentro dos meus próprios casacos. Aquecia, com o seu abraço e braços em volta dos meus ombros.
Me chamava de pintura. De "minha estudona", de magrela.
Elogiava minha cintura, contornava minha silhueta, sem nenhuma pressa.
Dizia sobre o monstro enorme na minha frente chamado Vida, e da minha postura frontal com ele "você chega, toda pequenininha, toda magrinha, e diz: sai da minha frente", admirava. A coragem , a persistência. Não tinha o menor interesse em esconder isso.
Quando eu chegava pertinho pra o acordar, sentada na beira da cama, abraçava minhas pernas e dava beijos nas minhas coxas e joelhos, resmungava qualquer coisa, continuava dormindo sem desfazer o abraço.
Acordava devagar, sutilmente mau humorado, mas não por mais de dez ou quinze minutos.
Cantava Beatles no chuveiro.
Me dizia muito sobre vencer, queria me ver vencer. Você é vencedor, acadêmico.
Falava com um instinto protetor imenso sobre sua família, bonito de ver.
E, mesmo com isso tudo, era intolerante. Era cético.
Aliás, o cético mais lindo do mundo.
Trazia uma certa autoridade, uma inflexibilidade. Engraçado.
Contraditório, pra alguém de coração tão quente. No mínimo divertido era, observar você.
Eu costumava ouvir de você, que você poderia ser o meu domingo. Meu day off, meu dia de descanso, minha calma.
Mas ah, a segunda-feira chegou.
A zona de conforto é quentinha, é segura. Como a rotina, como os dias úteis da semana.
Nem todo mundo está pronto pra ser o domingo de alguém.
Você preferiu a lógica, o palpável, o justificável, o raciocínio, a competição, à razão, à leveza, ao sentimento. Ao que simplesmente é, por ser simples. Por ser puro, sem as manchas dos medos, na realidade irrelevantes, que a sociedade ensina pra gente - e que, infelizmente, muitas vezes a gente aprende.
E você ficou com ela. Com a lógica.
Mas, que pena, para o que um dia foi nós dois, só com ela.
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