Pensava, deitada na rede do quiosque daquela praia perto de casa.
Um mar de água, um mar de gente, mas estava ali, ela, sozinha.
Durante vários momentos em seu dia, tinha um clique. Vários cliques. Boas ideias, boas sacadas. Ideias que ela tinha vontade de transformar em palavras, em legado. Pessoal, singelo, apenas pra deixar por aí num cantinho sem holofotes. Pra que, um dia ou outro, alguém, que não fosse tão apegado ao relógio e ao dinheiro, dispusesse o tempo de seu próprio olhar. Alguém que fosse ler por motivo nenhum, além de querer se conhecer o que ainda não se conhece e vontade de ver o que ainda não se viu. Não por ser um conto ou crônica de um dos livros dos dez mais vendidos na Veja, não por a vizinha que tem status social ter comentado sobre a autoria. Só por ler, por estar ali. Oportuno. Só por ser ele com si mesmo. E, aí, que deixasse aquilo entrar em quem se era. O intuito era deixar palavras em que, ao sair da leitura, se saísse carregando alguma coisa bonita a mais no peito. Mas, ainda assim, legado. Algo pra deixar, depois que ela e o corpo fossem embora desse mundo.
A vocação pra escrever era inegável, o reconhecimento era unânime, e tal, unanimidade, não incluía cinco, seis ou dez corações. Eram realmente muitos.
Mas, cursar jornalismo? Letras? Comunicação Social?
Que credibilidade tem um escritor que só escreve? Ele, por si próprio é uma metalinguagem. Um escritor que fala sobre sua vida de escritor. Sobre o que vê por aí, em sua esfera cotidiana. De escritor.
Que bobagem.
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