domingo, 7 de abril de 2019

Indefinido

olhou triste para o lado
não olhava pra nada quando fechava os olhos
peito
oco
só existia, ela, ali, sem expressar nada
expressava hesitação
digeria informações
ignorava o presente
ignorando o tempo
não pensava em nada
não sentia alegria
nem esperança
já se passara mais de metade do dia
ainda estava decidindo se queria viver, ser, existir, naquele dia
naquele dia
cheio de nada
cheio de todas as coisas as quais ela não sabia como reagir
não sabia o que sentia
nem o que pensar
só sabia que era tudo borrado
nebuloso
não escuro, mas pouco claro
Tão pouco.
Abstrato.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Márcia, Lívia e Renata

Eu agradeço a você irmã, que me ouviu contar o assédio.
Que me ouviu contar o abuso.
Que me ouviu contar a humilhação, a difamação.
Que me ouviu contar o injustificável.
Que me deu ombro.
Que me ouviu chorar sem julgamentos nos seus olhos quando viu a água a cair dos meus.
Que me olhou com olhar de gentileza, manso.
Que me olhou e entendeu minha dor. Que entendeu meu silêncio, ele a era.
Que entendeu meu queixo apoiado nas mãos com olhar baixo, distante.
Que sabia o que eu sabia.
Que compreendeu o que eu senti.
Agradeço, irmã, a você, que já dá nome às coisas. Não é inconveniência, é assédio moral. Não é piada, é assédio sexual. E não é... porque é... tantas outras coisas.
Agradeço, irmã, você.
Que não usa eufemismos pra desacreditar a dor das suas irmãs, nem a sua própria.
Que não dá colher de chá pra quem te bate com o objeto que tiver nas mãos.
Que te agride com as primeiras palavras que tiver na cabeça.
Mas que acredita que mulher tem que saber seus direitos, sim.
Que tem que ter senso crítico, sim.
Que aplaude a sua irmã, não somente por ser bonita, como toda mulher é, mas por saber pensar, por falar, por saber ouvir.
Falar, não se calar.
Agradeço, irmã, por não me fazer agradecer à repressão e opressão as quais me dizem que pertencem tanto a mim. Que dizem que pertencem tanto a nós, irmãs.
Agradeço por me dar seu tempo pra agir comigo como irmã.
Agradeço por me ensinar um pouco do que você sabe. E é tanto.
Agradeço por você ser você.
Agradeço, porque você é exemplo pra mim.
Exemplo de força.
Exemplo de resistência.
Exemplo de bom senso e respeito.
Exemplo de calma.
Exemplo de altruísmo, de solidariedade.
Exemplo de desapego, de ser, ser humano, incondicional pra ser irmão.
E eu amo poder olhar pra você, irmã, e saber que tenho um porto seguro pra atracar os meus barcos em dias de tempestade em que, a princípio, parece não haver porto algum, ao tentar enxergar além da chuva agitada. Mas está lá.
Agradeço, irmã, por você confiar sua fragilidade e dores à mim, agradeço por poder ser porto pra você também.
Por muito, do nosso mundo e da realidade do nosso país, não agradeço.
Por muito do que faz parte de o que é ser mulher, não agradeço.
Mas, algo nisso, é bom. É luz.
Ser irmã e ter irmãs é ser sentimento de vulnerabilidade, força e beleza, genuínas.
Dá pra tirar algo bom do panorama que nos faz irmãs.
Nós mesmas.
Temos umas às outras.
E, olhe um minuto, minhas mãos, estão aqui, dadas às suas.
Conte comigo.