terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Trégua

Natal representa muitas coisas. É ter luzes pelas ruas, árvores enfeitadas na sala - sem esquecer a estrela, ao topo, por favor - de casa, aquela leveza ao sentir o final de mais um ano que se vai.
É ter familiares, amigos e gente que mora no coração vindo de longe pra ficar por perto.
É comprar presentes, pensar em quem a gente ama.
É ficar junto e perceber o quanto sentiu saudades - aquela que é suave, gostosa, que deixa o rosto com sorriso largo.
É cozinhar pra fazer uma ceia generosa.
É dar abraços longos, cheios de aconchego.
É cheiro de vó.
É, também, comércio, claro. Que Papai Noel abençoe as pessoas que trabalham com o comércio nessa época do ano, que atendem tantas pessoas com pressa de ir e pouca paciência de estar.
É um dia bonito - e, quando não é, o é na intenção. Ah, o Natal...
Na realidade, Natal não é um dia, Natal é um momento do ano.
Natal é leveza, é um estado mental.
Bom, pois é. Ele é, de fato, tantas, tantas, coisas. Mas é principalmente trégua.
Trégua de sentir vontade de ostentar.
Trégua de querer exibir que tem isso, ou aquilo, que gera status; o diploma, os bens materiais, a namorada - aquela que é a bonita da turma.
Trégua de ter energia pra discutir.
Trégua de ser mesquinho.
Trégua de tantas, tantas, coisas.
De priorizar trivialidades, caracterizadas por irrelevâncias por aqueles que sabem ouvir-se, por aqueles que sabem qual é o tamanho do Bem e de tudo que é Bom.
Trégua de não se perdoar.
De não perdoar os outros.
De sentir qualquer sentimento que deixe gosto amargo na boca e peso no peito.
De querer brigar com a irmã que usou sua blusa sem pedir, aquele dia.
De julgar o colega de trabalho que ainda não têm condições de pagar por um bom terno.
De evitar a sogra.
De negar o que pode permitir.
De não demonstrar carinho por quem se sente bem-querer.
De não querer tentar ser melhor, já que querer ser melhor enche o ego de pancadas.
De brigar por razões que nem a gente sabe.
De sentir preguiça de tomar atitudes que carreguem altruísmo.
De ter preguiça de ter intenções altruístas.
Trégua de querer estar sempre certo, dominante, ao invés de só querer ver o outro sorrir.
Trégua de fazer cabo de guerra, aquele, verbal, por motivos sem finalidade construtiva.
Trégua de achar que o mundo gira ao redor do próprio umbigo.
Trégua de não ter tempo, principalmente tempo pra ouvir, compreender.
Trégua de sentir o que quer que seja, que não esteja próximo de Amor.
E, essa trégua, todos acatam. Ela traz pequenas grandes Verdades, pequenas sabedorias, deixa os grupos com uma relação quase, quase lá. Harmônica. É como se tudo que existe de nobre, tudo aquilo que lembra uma postura warm, como dizem os estadunidenses, mundo afora, estivesse na nossa frente, todos esses dias. Ela faz tão bem. Todos conseguem se sintonizar, entre si, à ela.
No entanto, que incoerente. É tão bonito, todos já sentiram. Todos sentem. E, depois do ano novo - bem, aqui no Brasil, depois do carnaval - elas começam, mais uma vez.
Guerras - fúteis, por conseguinte, inúteis.
Não é nem mais uma, é mais outra, vez.
Mais outra vez.
Tudo de novo. Mesmo a gente sabendo que já tem outro jeito de viver, mesmo a gente tendo dado Felicidade e tendo sido tão, tão, Feliz.
Que Papai Noel também abençoe nossa memória.