domingo, 22 de fevereiro de 2015

A estrada da nossa vida é feita de bifurcações.

Ela acordou com saudade. Saudade dele.
Lembrou da última conversa, de quando contou pra ele que ela ia embora. Naquele dia ela podia ter conversado melhor com ele, não devia ter aceito a conversa como ela foi — curta. Curtinha.
Muito educada, conversa de acordo com o que ele sempre tinha sido, mas curta e morna.
Ela pensou nisso e seus olhos encontraram um cantinho vazio na parede, conversou sobre suas saudades com uma amiga mais velha, que aconselhou que ela conversasse com ele, Não dê tempo pra ele te esquecer, lhe foi dito. 

I) Realmente, como ela tinha sido boba, por nada. Pegou o celular e mandou uma mensagem, simples, mas simpática. Como será que ele estava? Saudades! — não havia mal algum nisso, porque teria vergonha de fazê-lo? Eles haviam sido amigos por um tempo bom naquele ano, voltar a isso seria legal.
Leu no visor que a mensagem tinha sido enviada. 
Ficou feliz, ia ser bacana ouvir ele contando como tinha sido o dia, reclamando da irmã, falando sobre o treino, sobre receitas, as conversas com os meninos no intervalo e as tiradas dos professores na sala de aula, os carros bregas — amarelos   de alguns deles. 
Minutinhos depois, um vibra se fez sobre o sofá. Quando viu o celular notificando uma nova mensagem, sorriu.



II) Ele não devia fazer a mínima ideia que ela sentia falta dele e se importava com ele da mesma maneira, aliás, a menina de batom vermelho e pijama de verão que matutava seus pensamentos e saudades sozinha no quarto, tinha aceitado aquela última conversa como um sinal de que era melhor ela calar suas nostalgias. Aliás, falar algo agora levaria a quê? Ficou com receio. Um receio bobíssimo.
Ela tinha aprendido em vários filmes, séries e histórias antigas de bons livros que a gente encontra por aí, que declarações — mesmo as sutis, como um ola, tudo bem? pra retomar contato — eram a única maneira de alguém entender seus sentimentos, se você os sente mas não os coloca visíveis para a outra pessoa também, é como se não estivessem ali, se eles só existem pra você por envolverem outra pessoa e ela não saber deles, do que eles valem? Ela estava careca de saber disso. Sentiu-se covarde, ela não era de agir assim — de não agir  e não gostou de experimentar a sensação. E mesmo assim, ainda não conseguia nem digitar um monossílabo naquela janelinha, que estava esperando ser preenchida com conversas razoavelmente longas e palavras legais, de se dizer e de se ouvir. Mais uma vez.




As escolhas são sempre nossas. E ela seria hipócrita se não fizesse o que realmente queria. Se não fosse falar com ele, renunciaria a tudo que aprendeu tanto nos filmes, textos e vlogs, quanto com os exemplos de pessoas reais com quem ela conviveu. Pensando entre ir por um caminho ou outro, em silêncio, abriu a janela. 
Deitou, apagou a luz.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A metamorfose ambulante.

O Facebook não é minha rede social favorita. Apesar de ser um meio de comunicação e mídia fantástico (mesmo nem sempre sendo usado para os melhores fins, ele é, inegável meus bonitinhos!), da cultura que você encontra nele se navegar nas páginas certas e de ter aquelas páginas bacanas com vídeos engraçados que você mostra pra um amigo, pros seus pais. –, apesar de todas essas pequenas coisas legais, ele não era a minha rede social favorita pois pros olhos de muita gente lá, quanto mais curtidas (abençoados likes!) você tem, mais você vale a pena. Mais você é interessante. Sua história a sua, de vida. é mais atraente, vale mais. E era isso que eu achava bobo, não vou dizer que não gosto de quando minhas curtidas passam dos dois dígitos – seria mentira –, todo mundo gosta de ter um pouco de atenção. Mas não devia ser tão significativo assim, tem muita coisa boa no mundo que merece muito mais like que uma menina com um sorriso bonito e um vestido justo – e um cabelão enorme e brilhante! – na mesa do Pub. 
De qualquer modo, mais irrelevante que se importar bastante com aquele número de jóinhas, é questionar ele e matutar sobre o assunto. 
Hoje resolvi dar uma olhada na minha lista de amigos, vi muita gente que só conheço de vista, gente que o santo não bate com o meu, gente legal, gente legal com quem perdi contato. E independente desses detalhes frívolos que fazem parte do que é o Facebook, através da bendita lista que vi nele, minha cabeça – que pensava tanto nos meus momentos mais recentes, importantes ou não, que eu tinha passado e com quem tinha passado foi levada há um bom tempo atrás.

Era uma vez uma menina de cabelos castanhos e cacheados que gostava de desenhar, que brigava com a irmã menor, que não se dava bem com o pai, que tinha uma amiguinha chamada Scarlet, que não gostava dos professores, que tinha sempre boas notas sem estudar, que gostava de educação física, que chorava quando não conseguia resolver um exercício de matemática, que foi a única menina da sala que ganhou presente no dia dos namorados (no pré III),  que morria de medo do Smigol (de O Senhor dos Anéis), que gostava de brincar que era uma fada e fazia as amiguinhas acreditarem que eram fadas também, que passava cola para os amigos nas provas de português, que deu seu primeiro selinho embaixo da escada da casa do seu amiguinho Luigi, que gostava de derreter mussarela na frigideira pra comer com pão francês, que cortou o cabelo sozinha e disse pra mãe que ele encolheu, que por onde passava as pessoas sabiam seu nome, mas era querida por poucos, mas poucos que gostavam com carinho dela, que deu seu primeiro beijo numa balada por medo de beijar um conhecido e ele sair dizendo que ela não sabia beijar, que lia Capricho, que ouvia Manu Gavassi e pensava no cara bonitinho da sala quando ouvia algumas músicas. 
Que tinha um amigo queridíssimo que ia na casa dela de manhã, quando era bem frio, cedinho, de ônibus pra ajudar ela com física e matemática, só por ser um cara legal. É... Era uma vez uma menina que não via graça em pouco, que quando ria, ria gostosamente, que adorava ter um animal de estimação, que chorou quando sua cachorrinha morreu. Que adorava falar em público e nunca, nunquinha, sentiu vergonha de pedir desculpas pra alguém (na verdade, vergonha sim, mas receio, nem uma vezinha), que amava de todo o coração a companhia das suas amigas da sétima e oitava série, logo, elas também. Que adorava o time de basquete feminino, montado por conta própria (e que adorava ser raro perderem para os meninos), que não achava natural ver falta de empatia (mesmo quando essa falta não era direcionada pra ela), que gostava de meninos com cabelo comprido, que ouvia Avril Lavigne o tempo todo, que tinha vários posters, quase todos tirados de revistas adolescentes, na parede.
Que ás vezes ficava triste por não ter alguém que a orientasse e conversasse com ela, alguém sério que entendesse um pouco mais das coisas do que ela. Ou pelo menos, alguém que ela visse assim, por ter atitudes legais, com uma postura madura, sensata, mas também doce. Que por estar tão carente de uma companhia assim, na época nem percebeu a falta.
Que, se visse alguma menina chorando no banheiro do colégio, perguntava se ela estava bem e se dispunha a conversar com ela o tempo que precisasse, que aula poderia ser mais importante que fazer alguém que chora, ficar com uma carinha melhor?
Uma menina que virava um verdadeiro molequinho se visse alguém fazendo algo ruim pra sua irmã menor, sai de perto, brigar com ela, só eu. Uma menina que adorava ir no shopping com a mãe e a irmã pra ver um filme no cinema e depois passar na livraria, que adorava tirar o algodão que se formava no umbigo do pai durante o dia no trabalho (que as vezes era em casa). Que, quando contou pro pai que tinha medo do Smigol, recebeu um papel e um lápis, era pra ela desenhar ele amarrado, preso assim ele não tinha como fazer mal pra ela. Que adorava patinar no gelo nas pistas que o shopping fazia, que gostava do fim do ano pois sabia que ia ganhar um vestido da avó pra passar as festas, com a outra avó. Que adorava quando os avós (aqueles que compravam vestidos) fritavam nuggets e colocavam num prato com maionese e catchup, que achava engraçado quando o avó abraçava ele mesmo fechando os olhos depois que comia um nuggets, era o jeito dele de dizer que estava gostoso. 
Que adorava quando ia para a casa da avó (a que ela passava as festas de natal) e o marido dela fazia passeios de carriola pelo quintal, com ela e seus primos a bordo. Que adorava quando a avó desobedecia seus pais e dava uma colher cheinha de requeijão pra ela, bem antes de dormir. Que adorava correr descalça na garagem e ficar com os pés pretinhos quando os filhos de amigos dos pais vinham em casa, sempre pra brincar, enquanto os adultos conversavam e riam na mesa de café. 
Que ficava braba por saber que não sabia de muita coisa e dependia de tudo e todos, mas adorava ser criança, a inocência que ela já tinha combinava com essa fase de brincadeira, fase livre de status, vaidade, dietas ou regimes e a existência da possibilidade (mesmo que mínima) de gente perto por oportunismo. As crianças, as verdadeiras crianças, quase não cometiam os sete pecados capitais, o ouso dizer. É tudo leve e tudo é o que é. O perfume mais gostoso desse mundo é o cheiro de algodão doce, digo de todo o coração que, infância... A menina de cabelos cacheados teve.

Era uma vez uma menina de cabelos alisados e mechas louras, que usava aparelho, lixava as unhas, estudava pro vestibular e não tinha medo de beijar alguém que ela conhecesse, que morava com a madrasta (que pessoa 10!) e o pai, e era apaixonada por ele. Que ainda adorava bichinhos de estimação mas hoje não tinha um. Que era uma menina completamente diferente, e ainda sim, ela. Se perguntou quando a menina de cabelos sem cachos e mechas louras seria a pequena de cabelos escuros e cacheados, ela ainda ia ser outra muitas outras vezes.
 

Zé Ramalho estava certo quando disse que ele era uma metamorfose ambulante, acho que não tem termo melhor pra falar tanto dele quanto de todos nós.
Eu não era só os meus últimos dois, três anos. Eu sou dezoito anos de eu mesma. E de gente, indo. E vindo.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Contextos diferentes

Elas se abraçaram numa despedida que prometia mais emoção do que o que realmente ela foi, frívola.
Uma das meninas – a morena, alta e de mãos delicadas   abraçou ela – a outra, de cabelos coloridos, olhar vago  e seus olhos umedeceram com facilidade, a outra também ficou com os olhos marejados.
A morena achava que elas eram unidas, tolinha, chorou receando que dali dois ou três dias ia começar a sentir saudade.
Mas o motivo pra um vestígio de lágrimas nos olhos delas não era o mesmo.
No dia desse abraço, a menina morena tinha achado que era.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Mau humor, mas não grosseria 

Ser introspectivo e não estar lá com o melhor semblante, vez ou outra, é direito de todo mundo.
Invadir o espaço de outra pessoa com grosserias e rispidez não faz parte disso, usar o mau humor para justificar tal atitudes desagradáveis não passam de uma mentira, uma desculpa (que é diferente de um motivo) pra camuflar que você na verdade só não é alguém legal de ter por perto.

Cada pessoa é, a sua maneira, uma obra de arte.

Ela se amava, achava que dava um caldo, gostava da personalidade forte porém serena, do senso de humor leve – que vira e mexe também via graça no que era pesado – do carinho sincero e do elogio sutil e espontâneo que dirigia para aqueles que, por algum motivo, ela admirava – por fazer aquele feijão bem temperadinho ou aquele bolo tão gostoso, por recitar um poema pra esposa no meio de um grupo de amigos ou por ter uma carreira cheia de histórias, terminada brilhantemente e fechada com chave de ouro.
Mas, em curtos e breves momentos, ela queria ser diferente. 
Ela era aberta, o que você via dela num primeiro momento de convivência, não era muito diferente do que ela seria com você a longo prazo em relação ao modo de te tratar, dar atenção, ter interesse. claro, ela ia mudar o te tratar bem para não te tratar de algum modo por não querer manter contato se você fosse uma pessoa grosseira, frívola ou reprimida (um termo que acho mais correto para o que as pessoas chamam de falsa, já que a pessoa "falsa" na verdade geralmente não é ela mesma por não se aceitar, ser reprimida) Ela podia te olhar com afeto sem precisar ter com você anos de amizade, cada pessoa é, a sua maneira, uma obra de arte. Cada um... Um ser peculiar cheio de jeitos de comer, deitar pra dormir, falar, rir, de ter ideias e ideais, preferências, de ter um jeito de reagir com as pessoas, com a música.
Mas essa atitude que ela tinha, bom, isso pra ela não era nada, olhar com carinho para as pessoas com quem batia um papo e ter interesse por quem estava sentado ao seu lado na mesa era o mínimo, era natural. 
Isso não era apego, não era confidência, não era algum compromisso nem algum tipo de conquista. 
Era só fazer um momento legal. E isso não era esforço nenhum, todo mundo merece um instante em que a pessoa ali do lado tenha interesse em ouvir o que ela tem pra dizer.
Mas, as vezes, ela queria ser mais introspectiva. Pois, apesar de ter jeito aberto e brincalhão, isso não invalidava que ela apreciasse com sinceridade e olhar atento a delicadeza e que ela a fosse também, que tivesse seu lado retraído. 
Mas, mesmo sendo sempre ela como via que muita gente também o fazia algumas pessoas só enxergam umas as outras a longo prazo, mesmo ela, e seu todo, estando ali, quietinho, singelo, discreto ou não, o tempo todo.