Ela acordou com saudade. Saudade dele.
Lembrou da última conversa, de quando contou pra ele que ela ia embora. Naquele dia ela podia ter conversado melhor com ele, não devia ter aceito a conversa como ela foi — curta. Curtinha.
Muito educada, conversa de acordo com o que ele sempre tinha sido, mas curta e morna.
Ela pensou nisso e seus olhos encontraram um cantinho vazio na parede, conversou sobre suas saudades com uma amiga mais velha, que aconselhou que ela conversasse com ele, Não dê tempo pra ele te esquecer, lhe foi dito.
I) Realmente, como ela tinha sido boba, por nada. Pegou o celular e mandou uma mensagem, simples, mas simpática. Como será que ele estava? Saudades! — não havia mal algum nisso, porque teria vergonha de fazê-lo? Eles haviam sido amigos por um tempo bom naquele ano, voltar a isso seria legal.
Leu no visor que a mensagem tinha sido enviada.
Ficou feliz, ia ser bacana ouvir ele contando como tinha sido o dia, reclamando da irmã, falando sobre o treino, sobre receitas, as conversas com os meninos no intervalo e as tiradas dos professores na sala de aula, os carros bregas — amarelos — de alguns deles.
Minutinhos depois, um vibra se fez sobre o sofá. Quando viu o celular notificando uma nova mensagem, sorriu.
II) Ele não devia fazer a mínima ideia que ela sentia falta dele e se importava com ele da mesma maneira, aliás, a menina — de batom vermelho e pijama de verão — que matutava seus pensamentos e saudades sozinha no quarto, tinha aceitado aquela última conversa como um sinal de que era melhor ela calar suas nostalgias. Aliás, falar algo agora levaria a quê? Ficou com receio. Um receio bobíssimo.
Ela tinha aprendido em vários filmes, séries e histórias antigas de bons livros que a gente encontra por aí, que declarações — mesmo as sutis, como um ola, tudo bem? pra retomar contato — eram a única maneira de alguém entender seus sentimentos, se você os sente mas não os coloca visíveis para a outra pessoa também, é como se não estivessem ali, se eles só existem pra você por envolverem outra pessoa e ela não saber deles, do que eles valem? Ela estava careca de saber disso. Sentiu-se covarde, ela não era de agir assim — de não agir — e não gostou de experimentar a sensação. E mesmo assim, ainda não conseguia nem digitar um monossílabo naquela janelinha, que estava esperando ser preenchida com conversas razoavelmente longas e palavras legais, de se dizer e de se ouvir. Mais uma vez.
As escolhas são sempre nossas. E ela seria hipócrita se não fizesse o que realmente queria. Se não fosse falar com ele, renunciaria a tudo que aprendeu tanto nos filmes, textos e vlogs, quanto com os exemplos de pessoas reais com quem ela conviveu. Pensando entre ir por um caminho ou outro, em silêncio, abriu a janela.
Deitou, apagou a luz.
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