sábado, 19 de agosto de 2017

Yesterday

Olhava pra mim e soltava meus cabelos do coque eu eu tinha feito de manhã, sem dizer nada.
Me enrolava dentro dos meus próprios casacos. Aquecia, com o seu abraço e braços em volta dos meus ombros.
Me chamava de pintura. De "minha estudona", de magrela.
Elogiava minha cintura, contornava minha silhueta, sem nenhuma pressa.
Dizia sobre o monstro enorme na minha frente chamado Vida, e da minha postura frontal com ele "você chega, toda pequenininha, toda magrinha, e diz: sai da minha frente", admirava. A coragem , a persistência. Não tinha o menor interesse em esconder isso.
Quando eu chegava pertinho pra o acordar, sentada na beira da cama, abraçava minhas pernas e dava beijos nas minhas coxas e joelhos, resmungava qualquer coisa, continuava dormindo sem desfazer o abraço.
Acordava devagar, sutilmente mau humorado, mas não por mais de dez ou quinze minutos.
Cantava Beatles no chuveiro.
Me dizia muito sobre vencer, queria me ver vencer. Você é vencedor, acadêmico.
Falava com um instinto protetor imenso sobre sua família, bonito de ver.
E, mesmo com isso tudo, era intolerante. Era cético.
Aliás, o cético mais lindo do mundo.
Trazia uma certa autoridade, uma inflexibilidade. Engraçado.
Contraditório, pra alguém de coração tão quente. No mínimo divertido era, observar você.
Eu costumava ouvir de você, que você poderia ser o meu domingo. Meu day off, meu dia de descanso, minha calma.
Mas ah, a segunda-feira chegou.
A zona de conforto é quentinha, é segura. Como a rotina, como os dias úteis da semana.
Nem todo mundo está pronto pra ser o domingo de alguém.
Você preferiu a lógica, o palpável, o justificável, o raciocínio, a competição, à razão, à leveza, ao sentimento. Ao que simplesmente é, por ser simples. Por ser puro, sem as manchas dos medos, na realidade irrelevantes, que a sociedade ensina pra gente - e que, infelizmente, muitas vezes a gente aprende.
E você ficou com ela. Com a lógica.
Mas, que pena, para o que um dia foi nós dois, só com ela.

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