domingo, 9 de abril de 2017

Pai que nunca se sentiu filho

Ele não teve riso leve, cumplicidade, gentileza, respeito, privacidade ou relações em que os outros o encontravam na metade do caminho.
Os pilares, os, eram carregados ambos, por ele.
Ele sempre teve que se preocupar em ser maduro.
Em ser completamente responsável por si, pela consequência de qualquer palavra, silêncio ou ação, na raça.
Em saber relevar.
Em motivar e cativar a si mesmo independente da opinião de seus familiares.
Em ser sensatez durante discussões.
Em aprender a orientar e aconselhar à si mesmo.
Em ter uma idade mental maior comparada à idade do corpo.
Em autoafirmar a própria existência e necessidades para não lhe faltar nada, para não esquecerem de serem justos, inclusivos, com ele.
Em deixar a inocência, de brincar e ser ele mesmo, num cantinho dentro de si reservado para, não muitas, selecionadas pessoas de luz.
Em, antes de absorver uma dura crítica sobre si e a ter como verdade, observar da boca de quem ela saía.
Em olhar com compreensão e fraternidade pra quem o machucava, fisicamente ou não, por não estar feliz consigo próprio.
Lembrava de situações assim desde os seus cinco anos.
Cresceu.
O corpo começou a aparentar a idade que a mente já tinha conquistado precocemente, mas sem deixar de acompanhar os novos aprendizados que moldavam sua fibra moral.
Estudou, passou no vestibular.
Fez, deliciosamente e absolutamente consensualmente, bagunça com algumas moças que também queriam bagunçar.
Se formou na faculdade.
Se apaixonou.
Estudou, prestou um concurso.
Perdoou sua família pela consciência que eles não tiveram (por serem humanos, como ele).
Foi aprovado no concurso na segunda vez que o prestou. E se tornou juiz no tribunal regional numa cidade linda, a mesma em que viu o mar pela primeira vez.
Casou com a metade do seu coração.
Teve uma festa de casamento maravilhosa, regada à bom gosto, boa música, e de salão cheio de amigos de alma. Sua noiva estava explodindo de felicidade, ambos estavam. Vitoriosos, caminhando e, agora, de alianças de ouro. Juntos.
Teve dificuldades emocionais em assistir alguns casos no trabalho. Chorou numa noite, refletiu sobre aquela situação.
Teve outros dias melhores.
Chegou em casa com a mesa posta com velas e um elegante jantar, e em seguida a esposa, maluca, apareceu correndo ao seu encontro, de moletom, rabo de cavalo e sorriso no rosto. E, tirando a parte do sorriso (já íntimo e freguês das feições do rosto dela), a cena foi o paradoxo mais coerente que ele já tinha visto. Soube que era pai de um neném que estava a caminho.
Tirou um aprendizado daquele dia, há um tempo atrás no trabalho, que o tinha feito chorar. Seguiu em frente, com mais compreensão.
Comprou roupinhas de bebê. Ficou espantado com os valores de carrinho e de berço, se incomodou. Mas, já babão, comprou sem dar prioridade para os preços.
O amor da sua vida trouxe pro mundo uma menininha, que tinha os pés parecidos com os dele, tinha também seu queixo e cor de cabelo. Já os olhos, escuros, como os da mãe.
Ela cresceu, mostrou ter senso de justiça como o pai, discrição na vida pessoal como a mãe e um senso de humor que, meu Deus, era só dela.
Na sua festa de quinze anos (que ela só ouviu do pai que aconteceria depois de uma manhã atolada de processos e, em seguida, uma noite bem dormida e um generoso café da manhã) manifestou sentimentos que comoveram o coração do seu gordinho. E de todos da festa. O juiz sabia que era uma pessoa cheia de características pra melhorar. Mas ele nunca soube de forma tão clara, como naquela noite, que estava indo bem como ser humano, como exemplo de marido, como pai. Antes da valsa que dançaram, em um discurso surpresa preparado por ela, a menina de olhos castanhos se referiu a ele como Lealdade, Generosidade, Paciência, Amizade, Disciplina, Respeito e Amor. Ele chorou, tentou disfarçar mas não teve por onde, se ele era tudo isso, então ele se viu pai de uma pequena mulher que era a Gratidão.
Fez uma segunda lua de mel com a esposa pra comemorar os vinte anos desde a noite de núpcias.
Levou os pais pra um cruzeiro na costa brasileira, eles ainda não tinha estado em alto mar, e adoraram as férias, divertiram-se.
Ao longo dos anos, viu-se reconhecido por uma reputação invejável no seu ramo profissional, sendo admirado por características como perspicácia, discernimento e incorruptibilidade.
Pouco antes dos sessenta, se permitiu fazer um trabalho voluntário durante uma semana de férias, plantando árvores e servindo sopa em uma periferia, seu amor o acompanhou. Foi indescritível.
Sentiu Deus. Conheceu com consciência e calma a existência inegável e inata da empatia e da bondade vivas dentro de seu peito.
Passou por um caso durante o trabalho que o fez lembrar dos radicais e pesados mal entendidos que já teve em casa, quando mais novo, sem que as recordações lhe causassem desconforto.
Ficou feliz com quem ele era, por ter construído-se, pela determinação que teve, pelas escolhas que fez e principalmente pelo que se propôs (des)aprender. Pelos erros que não repetiu, os de si mesmo e os que aprendeu com outros durante os anos de interações sociais e convívios. Não tinha acatado o papel que lhe foi dado pelos seus pais e irmãos mais velhos, acreditou em si mesmo, em sua individualidade, acreditou na possibilidade de haver uma vida diferente, um ele mesmo diferente, aceitou não ser vítima de uma medíocre e comum história de egoísmo dentro de casa, como tem milhões mundo afora (onde todos se acham muito únicos, sofredores e especiais).
Agradeceu a si mesmo por nunca ter negado o que a vida lhe trouxe e lhe exigiu, pois ele era um homem pleno, amava a família, que se sentia amada por ele em cada atitude, era leal aos seus princípios, era respeitável, humilde, presente e dedicado na carreira, tinha grandes amigos e uma vida social levada e vivida muito gostosamente. Provou durante sua caminhada emoções e sentimentos boníssimos, se sentia abençoado
Era verdadeiramente feliz, era peça rara por aí.
Não era um homem negligente. Nunca desistiu, nunca abandonou, nunca desprezou. Não teve preguiça de se adaptar à vida, de aprender a ser feliz, de aprender a amar. De assimilar a imensa alegria e valor que tem na vida de um indivíduo que entende, e doa, o altruísmo e a contemporização.
Faleceu aos 94, deixando saudade para amigos da vida pessoal e da belíssima, honrada, vida no Direito, sendo amado incondicionalmente pela esposa, pelos filhos (sim, ele ganhou um filho quando conheceu, e adorou conhecer, seu genro) e pelos três netos, é, ele tinha amado incondicionalmente.

Nenhuma falta dos outros justifica o que não somos. Ao menos no coração, na vida pessoal, bom, como seres humanos, a gente sempre pode, e vai ser, quem quisermos ser.




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