Nada do que eu fiz foi pra te magoar. Muita gente aí fala, e demais, sem saber. E eu sei que foram dizer maldizeres sobre minhas escolhas e minha vida também pra você, sei que eles sabem pouco sobre minha história e minhas histórias, mesmo ignorando isso na hora de emitir boatos. Mas você os ouve, pois não estou ai pra você saber a verdade, saberia só de olhar pra mim te olhando.
Eu sabia o tempo todo o que eu sentia e nunca duvidei de estar apaixonada por você, um segundo que fosse.
Quando ele me pediu em casamento e eu aceitei, sorri pra ele, da boca pra fora, não do peito pra dentro. Fiquei em pânico. Fui pro banho depois de dizer sim ao pedido, e debaixo do chuveiro fiquei apática, de boca fechada e coração gritando. Você me veio na cabeça instantaneamente, imediatamente.
Eu sabia que estava errando.
Eu sabia que estava sendo desleal ao meu sentimento, a mim mesma.
Desleal a você, que eu soube, desde aquela viagem, que eu o amo tanto, e que é recíproco, e que a gente nem precisava expressamente dizer um pro outro pra saber. Você me ensinou o quanto palavras podem ser dispensáveis.
Eu sabia que ia tirar a mim mesma dos trilhos certos se fosse morar com ele.
E mesmo tendo tão claro o meu amor, que não era por aquele que se ajoelhou pra mim, eu não consegui recusar. Estava sozinha, sem o apoio dos meus pais, como é desde que sou pequena de tamanho e de sentimentos maduros, e isso afetou meu juízo. Aprendi nessa experiência que devo fazer somente aquilo que eu faria se me sentisse completamente amparada pelos meus pais, isso me devolve à razão, fico mais sensata e coerente com os desejos que brotam dentro de mim, compreendo se realmente quero algo ou se na verdade era uma busca pra compensar algum vazio, pensar assim é como reencontrar minha identidade.
Eu sinto, meu amor, que pelo que eu manifesto sobre minhas ideias sobre o mundo e seus conceitos, as pessoas me superestimam e esquecem-se da minha oscilação entre sabedoria e humanidade, frágil, que pede colo, ombro amigo e conselhos fraternais.
Você foi a única alma além da minha que enxergou minha vulnerabilidade sem condenações ou mal entendidos, que compreendeu que minha força não era sinônimo de autossuficiência, mas sim apenas momentos de força, de garra, coragem. Momentos.
Quando você me abraça me sinto inteira, sem cacos, de alma não aos pedaços, mas sendo totalidade, sendo pura luz.
E isso é um absurdo. Meu coração pode ter a idade da minha existência mas meu corpo e mente desta vida são muito novos pra não morrer de saudade de te ter por perto, nem que seja pra conversar contigo pelos olhos, como a gente sabe tão naturalmente, tão bem, fazer. Não posso hoje nem olhar braba pra você por saber que você está brabo comigo e preferiu sumir ao me falar. É ridículo, pois apesar desse pesar que sentir a sua falta me traz, eu tenho consciência suficiente pra saber que agora não é lugar nem hora pra gente viver juntos dentro do nosso abraço que, de dois, vai pra o quê se torna apenas um.
Eu entendo que o Universo é justo, e confio nele pra saber que se nossos corações e desejos diante da Vida estiverem ainda condizentes a gente vai se encontrar, de forma bem mais propícia e simples, sem limitações ou dependências externas para os nossos caminhos se cruzarem.
Mas até lá, meu amor, saudade.
Eu, que sou cigana e sou apaixonada pelo riso e pela dança de alma nua, expelindo e expressando prazer e sentimento pra qualquer amigo que esteja tocando o pandeiro ou feirante que caminhe pelas ruas, perdi a vontade de banalizar o acontecimento de um beijo, ou a intenção de um olhar. Não banalizo mais, nem pra fazer graça ou charme.
Graça? Não há mais graça em brincar depois de conhecer alguém que se leva a sério e leva a gente a sério. Alguém que quer da Vida e de si mesmo os mesmos desejos que existem comigo em meu coração. Que coisa você fez. Quem diria que tanta calma e respeito podiam virar tudo de cabeça pra baixo no mundo de alguém.
Agora não danço mais, não beijo sem sentir amor e não abraço qualquer amigo que não esteja entre os amigos que são meus irmãos.
Não sei mais se sou ainda cigana, se cigana é aquela que dança, faz joguinho, rouba e encanta rindo, emanando leveza e ar maroto sem seleção a quem, se só sei ser cigana agora com você, se quero ser cigana só para você. De moça que um dia foi cigana, despreocupada e rindo a toa, achando graça em seduzir, virei mulher.
Ah Deus, energia essa a sua, tão sua... Poderosa, doando calor, pertencente a quem você é. Energia que invade sem ser invasiva, sendo a própria intimidade quando perto da minha, que emana de dentro pra fora pra te encontrar. Olha só o que você fez e que, gostosamente, eu te deixei fazer... Trouxe luz pro melhor pedaço de mim.
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