quarta-feira, 7 de junho de 2017

O que aprendi com as rosas.

Li uma vez que, em um certo momento, Buda disse que quando gostamos de uma flor, a arrancamos. E que... Quando amamos uma flor, a regamos todos os dias. Disse, ele, que quem entendia isso, entendia a vida.
Tudo bem. Bonito, verdadeiro.
Aí, um tempo depois dessa leitura, me vi num local bom. Bom. Sem ilusões, sem ardilosidade, sem nenhuma intenção além da que era honestamente expressada. Local bom, era local sem segundas intenções. Local com pessoas boas - gente do bem. Gente que conhecia ciências. Matemática, psicologia, geografia, dança, medicina, engenharias, literatura, física quântica, história... Gente que conhecia características admiráveis, ouso dizer que exemplares, de culturas distintas, e diversas, mundo afora. Gente que conhecia alguns estudiosos, alguns pensadores... Einstein, Confúcio, Jung.
Gente que conhecia Cristo, também Buda, aliás.
E vi uma rosa. Logo ali, na mesa de uma das salas do local. Branca. Linda.
Mas fiquei intrigada. Como poderiam eles, aquela gente, boa, que tinha acesso a tanta grandiosidade nos conhecimentos ensinados ali, apenas gostar de uma flor?
Como poderiam, eles, a terem arrancado?
Pois é.
Bagunçou, por um momento, ou dois, a minha clareza a respeito do local, das pessoas, da situação em si. Teriam eles cometido um erro, um descuido? Estaria eu ignorando alguma sabedoria que, na verdade, eles tinham e eu desconhecia?
Quis compreender. Questionei.
Fui até uma das salas onde pessoas de maior autoridade intelectual estavam. Eu sabia, confiava, que ali eu encontraria uma resposta para a dúvida.
Ao entrar, fui recepcionada por uma amiga, já madura, senhora, de pouco mais de cinquenta anos. Cabelos negros, olhar hospitaleiro, firme, fraternal. Transparente. De feição espontaneamente gentil. Muito suave.
Manifestei minha análise, minha falta de luz, ou seja, a não capacidade de encontrar razão, perante o que eu sentia pelo que vi.
Com naturalidade, calma e sem rodeios, ela começou a me contar... Que todas as coisas tem utilidade, e que a de uma flor é enfeitar, trazer beleza... Que as flores tem um tempo de vida efêmero, e que elas passam esse tempo com uma utilidade quase que máxima, quando postas em locais em que não estariam por natureza. Me contou que para as flores era uma honra poder estar em ambientes bons, com pessoas boas e além de tudo, sendo úteis ali. As flores... Era como se ficassem felizes por passar o seu curto tempo de vida, singelo, estando e sendo flores onde naturalmente flores não se fazem presentes para encantar quaisquer olhos.
Senti que uma vida na roseira podia parecer o melhor para uma rosa, mas na verdade a roseira também podia ser uma vida comum, em escalas humanas, quase que uma zona de conforto, para essa mesma, rosa.
Pensei em nós, pessoas. No quanto defendemos a agarramo-nos à nossa natureza, às nossas roseiras. Mesmo com tantos lugares e tantos caminhos precisando de quem sinta vontade de ser útil, precisando de quem se doe, de quem deixe o dia, a noite, um instante, que seja, mais bonito. Precisando de quem traga a própria beleza - a própria característica, pessoal, quase sempre interior, que lhe torna belo.
Pode ser a beleza do jeito que você é. Você pode ser lírio, ou girassol. Só precisa ser você. Só precisa reconhecer que não tem nada de errado em seguir a vida, talvez comum, que a sua versão de roseira te ofereça. Mas que você pode extrair, ser, mais do próprio potencial, se buscar existir em um lugar onde não haja ainda flor alguma.
Achei belíssimo.
A amiga, senhora, que com aquelas palavras, mostrou, na realidade, ter coração de moça - delicado, diligente e dócil - coincidentemente, chamava-se Rosa.
Compreendi, então, agora, quando me diziam que a natureza é perfeita. Ela, sem as faculdades mentais das quais nos orgulhamos tanto ter à nossa disposição, sabe mais que nós ser exemplo - absoluto - de altruísmo, de objetivo... De razão de existência.
As flores têm muito a ensinar. E, depois disso, sei que elas sempre estarão cumprindo seu papel e oferecendo, apresentando, inúmeros exemplos, pra qualquer um, sem seleção, sem fazer distinções, que queira aprender. E que o farão com toda a graça, respeito, generosidade, sutileza e perfeição, que só a natureza têm.
Ou melhor... Que, pelo menos, por hora, só a natureza É.

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