Na varanda ela via o rio, a quadra grande de futebol, os muitos prédios, árvores que pareciam decorar a rua, com as copas altas e cheias. Numa rua que subia, formava-se uma pequena fileira ondulada de luzinhas redondas. Vento que soprava devagar, fazendo carinho nas bochechas. Era quase um quadro.
Parecia que de madrugada os dias dela voltavam devagarzinho em sua cabeça, trazendo um extra de detalhes não percebidos nos momentos, na hora, em que ela os viveu.
Você não merece alguém que te olha e fala "desgruda". – E, então os detalhes, olhares e dizeres daquela tarde vieram como uma onda quebrando, chegando sem avisar, deixando ela imersa dentro dessa memória, a fazendo formar uma opinião sobre aquilo.
Pelo contrário, você merece alguém que enrosque os braços no seu pescoço, olhe no seu olho e diga "chega mais". Carinho, o que realmente é carinho, esse afeto simples e sincero, não é pra todo mundo. Eu até ia te dizer que todo mundo merece, mas mérito, ao meu ver, tem a ver com o interesse de alguém em te dar isso e com a sua postura em receber. Só pessoais legais tem isso. Não falo de gente que é popular, ou qualquer adjetivo semelhante, mas sim pessoas que são mesmo legais, as com o coração bom e com interesse no que há além do frívolo, como as relações que só existem por sua base serem o entretenimento e não as pessoas em si (que não são, na verdade, realmente relações).
E, na minha ótica otimista de mundo a maioria das pessoas são ou tem uma tendência a serem legais. Mas, mesmo que sendo uma maioria, não é todo mundo. E só por não ter a tendência, mas sim ser legal, você já não é todo mundo.
Saiu do lado de fora, foi ao banheiro e escovou os dentes.
– Uau, que dia.
E ela nem estava falando de hoje.
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