domingo, 30 de agosto de 2015

Ninguém nasce burro ou inteligente, mas sim com o livre arbítrio de escolher quem e o que é e quer ser. (para um mundo melhor, falta vontade, não recursos I)

Burrice não é questão de capacidade – capacidade é limitação, e quem se limita ou ilimita, bom, é cada um, quando escolhe permanecer raso sobre um assunto ou dedicar-se a pesquisa e entendimento do objeto ou conteúdo estudado – é questão de saber ser ignorante e ignorar a sua própria ignorância, sem fazer questão alguma de conhecer algo, mesmo aquilo que te desagrada.

O ser humano só odeia, detesta e repudia aquilo que desconhece (é claro que você pode, por exemplo, conhecer o que é violência e repudiá-la, mas estamos em outro contexto) e só ama, admira e se aprofunda no que conhece, temos preguiça do conhecimento e de admitir a existência da diversidade. 
Diversidade aliás, que não é inválida por ter uma natureza que diverge da nossa – da minha, da sua, em forma de agir, pensar, ser. O mundo também é mais bonito com aquilo, com isso, com aquele cara ali, que não é parecido com você.

Quantas vezes você vê numa roda de amigos alguém soltando um comentário racista, homofóbico, e aí um deles interfere dizendo que tem um amigo ou familiar que se encaixa no alvo de preconceito do comentário e, em seguida, o autor deste se desculpa? Pois é, a gente já viu essa história varias vezes. A gente só tem empatia com o que, de alguma forma, está próximo de nós – ou entendemos estar próximo, pois sempre está, mas nós fazemos nossas classificações e criamos as distâncias. 

Nacionalidade, regionalidade, hereditariedade, origem étnica (a tal aparência de olhos puxados, cor etc), idade, profissão, cultura, status social, vestimentas, orientação sexual entre outros são as determinantes dessa distância  que existe por que nós a inventamos e colocamos lá. São apenas pretextos para que aquela pessoa – que não se encaixa dentro do que é semelhante a nós mesmos – não mereça nosso tempo ou respeito. 
Aliás, quem é aquele fulano ali, mesmo? 
No fim das contas é um pretexto pra ser medíocre e tentar justificar que o desprezo pelos demais é aceitável se "as circunstâncias o pedirem" 

Ela é garçonete, a outra é stripper, é claro que eu não vou respeitar uma dessas aí! 

Ah, ele é pedreiro, o irmão caminhoneiro, esses nem gente são, esses caras nem sabem o que é trabalhar...

Mas quem cria circunstâncias e dá importância a elas o suficiente para que haja, entre as pessoas, a – nesse contexto  distância? 

Além disso, a história deles é diferente da sua, como foi a infância deles? Como é a família? Como foi a formação acadêmica, a época no colégio? Eles tiverem o que você teve? Uma mãe carinhosa, um pai honesto e com disciplina no trabalho, roupas novas, limpas, um quarto cheio de brinquedos, amigos, pais com uma vida social saudável, pessoas livres de vícios na família, dois carros na garagem, uma boa educação, esporte presente na vida, avós próximos, pais associados a um clube de campo... Enfim, uma vida propícia ao sucesso. 
(Sim, somente propícia, pois assim como filhos de uma empregada doméstica, de uma stripper ou caminhoneiro podem vir a se tornar adultos bem sucedidos, médicos, atores, advogados, engenheiros, o que for... Filhos de adultos bem sucedidos também podem vir a se tornar pedreiros, caminhoneiros ou garçonetes. A questão é as circunstâncias serem favoráveis a isso ou não, mas o que cada um se torna, sempre é, conscientemente ou não, escolha de si mesmo)

Mas e quando você passa a ter consciência que aquele negro, gay, lésbica, ou pessoa pobre que passa ali na rua, como um desconhecido pra você, é amado por alguém? Também tem uma família, amigos, células, um corpo e mente que precisa ser nutridos e cuidados, fome, sede, necessidades básicas, uma história, sentimentos, existência, importância. As pessoas costumam dizer que não respeitam, não confiam um mínimo e não sorriem para desconhecidos pois tais nunca fizeram nada para eles, ora pois, e não é por isso mesmo que é muito mais natural dar um sorriso, respeitar e dar um pouco de credibilidade? Ele nunca te fez nada.

Não estamos falando de imprudência (quando citei a credibilidade para com desconhecidos), não há aqui uma sugestão de estupidez, mas sim de não ter tantas cascas com as pessoas a nossa volta no nosso cotidiano – os colegas de trabalho, de faculdade, de colégio, quem passa por você no dia a dia – nós não sabemos quem são aquelas pessoas, a única certeza é que eles existem, que alguém sente saudade deles, que alguém dá gargalhadas quando eles conversam, que eles tem seus gostos, desgostos, desejos, filmes favoritos, bandas e músicas prediletas, que tem suas preferências culinárias, que, como você, não acham agradável estar num metrô ou ônibus saturado de gente, que, mesmo podendo levar uma vida saudável, tem um fraco por chocolate, que ele quer chegar em casa e se esticar gostosamente no sofá no fim do dia – que ele tem vulnerabilidade e carinho dentro de si, que é um ser humano igual você, igual eu, igual seus pais. 
(Assim como os alvos daqueles amores platônicos também são pessoas cheias de características admiráveis e falhas)

Sério, igualzinho, eu sei que as vezes – as vezes, até muitas vezes – parece que não.

Os gostos do outro, como a afinidade com gêneros específicos de cinema ou o paladar gastronômico, não tem que ser nadinha como os seus pra serem bons, pra serem válidos, pra serem especiais. Pra ele é, então é. Você não tem que concordar, não existe uma verdade absoluta, por exemplo, sobre qual é a melhor banda. Melhor no que? Um vai achar importante que o grupo musical tenha músicas com boas letras, outro, que tenha boa melodia, outro, bons videoclipes, mais um outro, que tenha um bom figurino e coreografias nos shows. O aspecto que te chama atenção é diferente do que chama a atenção do outro, cada um tem e faz suas prioridades.

E não cabe a ninguém querer impor as suas – prioridades e importâncias – isso é burrice. Se você está impondo, é por achar que precisa impor, e se precisa impor, é porque há algo que diverge, há diferença entre você e a pessoa a qual você está impondo, se há diferença, ela não é como você – a atitude de se impor já deixa incontestável que você reconhece a existência da diferença – nessas horas, o que mais caberia como conduta inteligente, sábia, seria reconhecer a individualidade (não individualismo) desse outro, e não ter a ignorância de, enquanto reconhecendo essa individualidade, estar impondo a sua, fazer isso é ignorar sua própria ignorância sobre aquele outro, em outras palavras, está querendo que o que engloba sua esfera de vida – suas verdades, sentimentos, história, formação como pessoa, preferências etc – sobreponha o que engloba a dele, essa atitude afirma que a sua tem uma importância maior, só por ser a sua. Além de burrice, isso expõe egoísmo. 

O mundo já seria muito melhor que o que conhecemos hoje, só por não ser tão duro, se reconhecêssemos a importância que o outro, a diferença, as diversidades e peculiaridades tem. 

O mundo não é duro, cruel, frio e calculista. O meio é produto do homem, não o contrário. Isso induz a concluir que as pessoas sejam duras, cruéis, frias e calculistas, mas não, não são. Esses são tipos de persona adotada pelos covardes e inseguros – não estamos sendo pejorativos aqui  pessoas que preferem se manter rasas ao invés de mergulhar e se submergir dentro de si mesmos, fingindo não ter interesse, ou a existência de mais sobre quem eles são além do que parecem ou pensam ser, quando na verdade, o fazem por medo do que vão encontrar, sabem que ampliar a consciência, e acordar para si, dói, ainda mais eles, que tem muito do que sentir remorso. 

A bondade vem com o despertar da consciência, é por isso que apenas pessoas fortes – não por nascerem assim ou terem sido  incentivadas a ser, mas por terem escolhido ser – são boas, bondosas. 

Mas, usando o termo anterior, como sua esfera vai ser respeitada e reconhecida se você mesmo não souber o que a engloba? Para respeitar, reconhecer a importância e a existência do outro, temos que admitir a nossa existência e importância e respeitar quem somos e almejamos ser, logo, somos apresentados à possibilidade e oportunidade de autoconhecimento.

Bondade é um dos caminhos do Amor, e Amor não é pra gente fraca, ele é cheio de altruísmo.
Amor é o sentimento mais nobre, e ele está ao alcance de absolutamente todos – todos que o querem ao seu alcance e no seu caminho – cabe a cada um, ao longo de sua estrada, escolher se quer, ou não, ser nobre de coração.

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