Como uma sugestão, as marcas naturais ali contempladas a convidaram a pensar nas cicatrizes que alguém carrega – conquista – durante a vida. De alguma forma, aquelas linhas a remeteram a pensar em dor, e cura.
Imersa em reflexões e analogias, tirou a sapatilha dos pés. E os olhou.
Haviam, naqueles pés, bolhas e calos, mesclados com um dolorido e suado tom de cor de rosa se mesclando à cor da pele.
Sem cada calo, cada cor de rosa na pele, cada unha machucada e ausente do colorido da cor de algum esmalte, ela não causaria tanto encanto naquele palco, da academia onde estudava seu delicado balé.
Pensou nas suas últimas noites de apresentação.
Cadeiras de veludo vermelho ocupadas, atenção, envolvimento, silêncio.
Lágrimas nos olhos.
Aplausos.
Respeito.
Respeito.
Noites magníficas.
Já num rápido instante, ali no quarto deixado pela luz do dia, ficou claro pra ela que toda doçura, suavidade, leveza e belezas que deixassem seus telespectadores em hipnose, eram tão facilmente admirados naquele instante pois havia tido uma imensa dedicação e complexidade para se chegar ao simples, ao sincero.
Simples e sincero era tudo aquilo que não dependia de circunstâncias para ser.
Não tinha mais que ser confortável, nem que ter as unhas dos pés feitas toda a semana.
Não tinha mais que comer pizza toda sexta-feira.
Não tinha mais que se preocupar na quantidade de pessoas que testemunhariam se ela errasse.
Não tinha mais que descansar 9h por noite ou sonhar seus sonhos até mais tarde no domingo.
Não tinha mais que se preocupar na quantidade de pessoas que testemunhariam se ela errasse.
Não tinha mais que descansar 9h por noite ou sonhar seus sonhos até mais tarde no domingo.
Tinha que ser doação, suor e entrega.
É que, depois de se sentir infinita várias vezes sobre um palco sob um teto sob estrelas, não havia mais obrigação, agora havia o querer.
As prioridades mudam quando entendemos que todo calo e bolha nos pés se transmutam em algo belo.
As prioridades mudam quando entendemos que todo calo e bolha nos pés se transmutam em algo belo.
Tanto no balé quanto na vida, ela entendeu que cada passo de dança poderia ser dançado como uma vitória, pelo mérito de seu tempo a aperfeiçoar isso, mas ainda assim, com a simplicidade de uma criança que se divertiria em dançar para si mesma. Poucos minutos antes de adormecer, de semblante sereno, como quem reconhece a leveza de servir um nobre propósito, estava sorrindo.
Muito bonito o texto! Adorei a sua analogia com relação ao esforço e a plenitude de quem se realiza ao se doar.
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