quarta-feira, 4 de maio de 2016

O menino que respeitava o dinheiro

Ela observou aquele garoto, observou que ele tinha comportamentos e critérios condicionais, circunstanciais, com as demais pessoas, critérios esses baseados em aparência e esteriótipo físico, renda financeira e estilo de vida.
Se uma pessoa fosse ríspida de graça com ele, mas levasse a vida material que ele gostaria de levar um dia, ele abaixava a cabeça.
Se ele fosse  não educadamente ou normalmente rejeitado, mas   humilhado por alguma garota que estivesse perfeitamente encaixada dentro dos padrões de beleza impostos pela mídia, ele dava razão pra atitude dela, concordando com o desprezo com si mesmo.
Se alguém fizesse algo que o incomodasse ou que ele desaprovasse, como ser humano, mas tivesse aquele relógio de pulso, daquela grife, que ele gostaria de comprar, ele não emitia manifestação alguma.
Se um cara na rua passasse com uma Mercedes jogando lixo pela janela do carro, ele pensava sozinho que aquele cara podia fazer aquilo, pois tinha um carro de luxo, e isso dava direitos a mais a ele.
Se ele ouvisse o chefe, casado e pai de três filhos, comentando sobre a noite passada com a secretária, ele não sentia repulsa, mas o invejava. Uau, ele tinha grana, uma família pra fazer papel de elenco de propaganda de margarina na vida social dele, e ainda tinha a gostosa que ele desejasse, onde, quando e como desejasse.
Se a vizinha falasse com desdém e pejoratividade do cortador de grama que trabalhava naquela rua e não tivesse pudor nenhum em mostrar pra este mesmo jardineiro o quanto ela o desprezava, o garoto a aplaudia mentalmente, aliás, o cara é só um jardineiro, o que ele poderia proporcionar de contato, festas ou status? Realmente não vale a pena gastar seu tempo nem com um "bom dia", por favor.

A cada vez que ele concordava com a frieza, a indiferença humana e o oportunismo social como determinante para qualquer início de relacionamento, ele colocava o próprio valor pessoal equivalente ao preço de muitas cédulas.
Ela, a garota que observava, começou a ver o quanto o menino – que queria se dizer homem  tinha falsos moralismos, via que a cada dia ele ficava menor.
Ele era aquele tipo de pessoa que só se aproximava daqueles que o podiam beneficiar, e quanto mais ele o fazia, mais ele se afastava de quem ele era.
E mais ia se autoafirmando.
E mais se notava que sua base emocional estava no saldo da conta bancária.
E mais se percebia o quanto ele era inseguro.
Então ele se casou, com uma loira de família rica.
Então ele começou a ver que num convívio diário não dava pra ignorar que ele era de carne e osso.
Então a loira começou a ficar incomodada por ter um marido fracote que queria conversar antes de dormir.
Pois no mundo que ele criou, querer conversar sobre problemas cotidianos com a esposa, era coisa de homem frouxo.
Então, um dia, ele deitou com uma morena.
No outro, com uma ruiva...
E, num dia qualquer, acordou sozinho na cama.
Sem casamento.
Sem loira, morena, ou ruiva.
Sem filho ou filha.
Até que só sobrou uma criança, na liderança de uma multinacional, em vestes de adulto, com medo do amor.
A observadora, silenciosa e discreta, sentiu uma tristeza imensa, pela empatia que se permitiu ter com ele.
E chorou. Por todas as lágrimas que ele passaria a vida sem chorar, já que ele não se emocionava.
Ele nunca ia ter os olhos marejados ao olhar pra uma criança brincando, pois ele ainda a era, ele só precisava de um colo, aquele colo que ele havia se fechado a receber desde que passou a respeitar mais o dinheiro que as pessoas.
Ah, se os adultos soubessem o quanto é infantil negar ainda ser uma criança...




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