sexta-feira, 1 de julho de 2016

Tentativa de fuga

Tentei fugir.
Do que eu considero arte.
Do delicado.
Do sutil.
Do gentil.
Do olhar doce para com o mundo.
E para com os outros.
Da alegria ao interagir com uma criança.
Da leveza que sentia em andar sem sapatos ou meias nos pés.
De andar nua – de maquiagem, de autoafirmação, de medo de ter carinho por gente nova (por mais gente).
Tentei fugir do belo.
Da admiração silenciosa – anônima – por estranhos que tinham atitudes e gestos bonitos.
Da literatura.
Da arte de lápis e papel, da arte de tinta e tela.
E daquela que era deleite para os meus ouvidos e coração.
Do meu radar que reconhecia algum sentimento em todos os lugares pra onde eu olhava.
E da breve meditação seguida de apreciação, ao reconhecê-lo.
Tentei fugir da ânsia por viajar sem compromisso pelos lugares mais distintos daqueles em que eu vivi ou vivia.
Mas meus olhos sempre brilhavam quando eu me via diante de fotos de Santorini.
Tentei também, fugir da emoção que sentia ao sentar numa poltrona vermelha de teatro.
E da – grande – possibilidade de choro ao fechar das cortinas. 
E, sob as estrelas, sentada na cama, ao lado do corpo que guardava a alma daquele por quem meu coração batia, pensando em tudo do qual eu tentava fugir, me peguei escrevendo poesia, enquanto minha outra mão se ocupava com um cafuné.
Amar é natural.

Nenhum comentário:

Postar um comentário