domingo, 4 de dezembro de 2016

O contexto gentil que a morte traz

Muitos, todos aqueles por quem a morte passou por perto, tem uma realidade mais gentil.
Um pai ou mãe de um corajoso coração que acabou morrendo cedo demais.
Um avô que foi como um pai para aquele neto cujos pais se foram em algum acidente.
Uma tia que, junto com seu irmão, cuidou, fazendo o melhor que pôde, da sua sobrinha órfã de mãe.
Uma irmã prestativa e carinhosa que se foi durante um procedimento cirúrgico.
Uma avó, de ar suave e acolhedor, que não pôde ver o neto se formar.
De fato...
A morte e todo seu contexto é bastante gentil, ela ativa em nós o sentimento de reconhecer a fragilidade da vida, o quanto ela é preciosa e momentânea.
A ideia de pensar em quem devia ser aquele cara que participou do processo de te dar a vida, e te acompanhou até o momento que a vida lhe permitiu é hospitaleira, bonita.
Ver amigos antigos comentando a respeito da índole boa e delicada de quem foi a nossa mãe...
Ouvir parentes contando situações familiares dosadas de grande senso de humor sobre aquele pai, e sentindo falta dos motivos bobos de discussão.
Quando é lembrança não se sente a convivência, não se sentem os bobos incômodos, só se sente amor.
Aliás, foi tão passageiro.
A vida já não traz essa sutileza.
A morte, por outro lado, preserva as coisas, e conserva amores.
Pois, até então, nós, só humanos, acreditamos que não se escolhe partir, e é nostalgicamente bonito reconhecer a grandiosidade de algo Maior sobre nós e nossos caminhos, além de nossas vontades pessoais, que são, muitas vezes, triviais.
A morte traz um sentimento geral e incontestável de sensibilidade, de um lampejo de fé.
Ela soa muito mais agradável comparada a um pai ou mãe vivos que não são presentes com os seus filhos, ou que negaram se dedicar a construção do amor um para com o outro.
A morte soa muito mais leve, comparada a uma mãe vaidosa, fútil e desinteressada.
A morte soa mais calma, que um dia a dia com um pai estressado, de condutas violentas e camaleônicas, como um político, que é um alguém diferente dependendo da companhia.
É muito mais natural alguém ter vontade de abraçar a história de alguém cujos pais, irmãos, avós, faleceram, que ter proximidade com alguém de pais, camufladamente ou não, hipócritas, soberbos, negligentes, irmãos que difamam-se ou ridicularizam-se publicamente, avós que contam dias recheados de inventadas situações negativas, por necessidade de atenção, autoafirmação, ou qualquer motivo egoísta e efêmero.
É claro, a história não tem carisma, grandes atos ou pessoas admiráveis. E, se no meio de tudo isso, existir um alguém admirável, você não vai querer olhar de perto e pensar por si mesmo para reconhecê-lo, ou tê-lo como amigo.
A gente tem dificuldade de ter coragem para acreditar em exceções. Ou apenas reconhecer que aquele avô, mãe, pai ou irmão do fulano, não é exatamente o que a gente queria acreditar que fosse, aliás, a história dele era boa, as versões, apenas dele, que você ouviu sobre seu caminho, foram bem elaboradas, várias salpicadas de vitimismo e falso heroísmo.

Mas, na morte é permitida a redenção, a confiança e a crença.
E também a coragem, que anjo (ou demônio) vai rir e te repelir, olhar torto, excluir de algum clubinho ou grupo social se você admitir, nas suas palavras e conduta, o que sente e pensa? Você não está mais no mundo dos homens para ser algo ofensivo e ruim assumir suas diferenças na adversidade, sua real face e identidade. Porém, nessas circunstâncias, ser quem você é, na sua mente e coração, já não é mais coragem, claro.

Enquanto que, na vida, é necessário ser forte, ser porto seguro de si, trabalhar.
E ser dócil apenas quando se sabe que não vai ser desprezada ou ridicularizada sua doçura.
É, que coisa, não? Seres humanos, de capacidade de serem tão conscientes do que é realmente relevante, por alguns instantes, sabem ignorar suas ciências pessoais quando não lhes cabe, ou falta-lhes coragem. E alguém consciente leva uma bofetada por isso.
A vida não traz gentileza, pois, enquanto você ainda está vivo, ainda pode melhorar, crescer, ser, ainda está acessível para você todas as outras vidas e pessoas que você precisa tocar, cuidar.
Gosto de acreditar que a vida e a morte, diferente do que muitos pensam, não são pólos opostos, ambas são portas, para caminhos de evolução em formas e níveis físicos e dimensionais distintos.
Mas são apenas portas.
Bom, mas não diga isso para aqueles que estão vivos apenas para esta vida, você pode ser visto como louco.
Assuntos do coração, é necessário dividir com aqueles que já estão acordados para a morte, é disso que se trata a verdadeira vida.
Aqueles que compreendem a morte, compreendem as finalidades para as quais estamos hoje aqui.
Eles compreendem que a gentileza e a doçura, características de coração aberto, acabam sendo a única coisa que importa.
Não na carreira, mas na vida humana.
Aquela que traz calor para o peito.
E o emana para outros peitos, também.




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