Ela ia embora. Era hora de mudar de casa, de cidade, de colégio, de novo.
Mas a novidade era mudar de gente dentro de casa. A novidade foi que – dessa vez – ela escolheu ir.
E estava feliz por isso. Achava melhor sair da casa da mãe para a do pai que da casa da mãe pra casa vazia, em que ela morasse sozinha. Era melhor se desprender aos poucos antes de viver vida de adulta, pra mudança não ser muito brusca.
Terceiro ano estava vindo, finalmente. Finalmente, aliás, ela ficou presa, por si mesma, no primeiro ano do EM duas vezes.
Vestibular, São Paulo, apartamento, USP, 37 por vaga no curso que ela desejava.
Caramba, ela tava ferrada. Festa, show, bebida ou meninos seriam coisas das quais ela só ouviria falar por uns bons meses. Ela gostava de se divertir, seria difícil se focar para aquela prova – aquela provinha filha da mãe que a ingressaria na faculdade que ela mais queria no mundo – se ela não quisesse tanto e tão sinceramente.
Ia sentir falta de dormir na casa da amiga e de rir com a chegada da mãe dessa amiga, bêbada. Bêbada de coração bom, adorava conversar com ela e ouvir as histórias que ela contava, ás vezes ela pensava que ela era assim um pouco torta por ter ele, o coração bom, ferido – talvez até por ela mesma, mas ainda assim ferido.
Ia sentir falta daquela avenida que só tinha lojas bonitas, e coqueiros bem altos, também.
As saudades que ela dizia sentir hoje, de algum carinha ou lugar, pareceriam bobinhas e juvenis dali pra frente. Logo tudo alcançaria um patamar diferente, ela estava se permitindo.
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