segunda-feira, 21 de setembro de 2015

As coisas grandes são as pequenas.

As pessoas acham importante ser grandioso, fazer grandes coisas, conhecer muitas pessoas, viajar para muitos lugares e ter uma carreira fantástica e admirável, e se importam tão desesperadamente, com tanta pressa e tanta urgência, que esquecem o quanto é grandioso pôr atenção nas coisas que a gente chama de pequeno, aquilo do dia a dia, aquilo que é sutil.

Como você é grandioso se não for constituído de vários pequenos feitos, atitudes e passos? Como quer ser grandioso – glorioso – se não dá glórias (não estamos falando de frequentar quaisquer lugar religioso ou seguir quaisquer religião, apenas de agradecer, sem alardes, sozinho, sincero, pra você mesmo, de coração) por acordar saudável todos os dias, por saber que vai fazer três refeições, que têm água limpa e tratada disponível para beber, para tomar banho? Pense no quão simples isso é e no quanto é imenso esse privilégio. 

Como quer fazer grandes coisas se nem abre a porta quando – por exemplo  uma gestante, desconhecida, passa por você andando com dificuldade, com sacolas e exames nas mãos? Se, quando pergunta pro seu filho como foi o dia dele, quando ele começa a contar, você se dispersa completamente e o interrompe falando sobre algo completamente aleatório, paralelo, ao assunto? Ou você nem pergunta? 
Como quer grandes conquistas, se nem agradece a sua esposa ou marido pelo trabalho de cuidar da casa e fazer o jantar, educar os filhos de vocês na sua ausência (e fazer tudo isso, enquanto pode estar trabalhando fora também) e por cuidar do jardim?
Como você quer ser um herói se nem o é na sua própria história, se não é bom nem pra você mesmo?

Bom, conhecer muitas pessoas é o que você quer? Isso é bonito, você já conhece a si mesmo? Conhece seus pais, seus irmãos? Sabe quem eles são? Sabe o que os faz felizes? Quando sabe, se importa em descer do salto por coisas bobas, sabe ceder, por quem está com você? Sabe conviver em harmonia, conviver bem, com quem não é como você? Ou melhor, sabe conviver bem com quem age de maneira semelhante a sua?
Sabe  o que, verdadeiramente, te faz rir, ou te faz feliz, e o que você faz na sua vida, não por amor ou espontaneidade, mas sim pra impressionar pessoas que, na maioria das vezes, você na verdade nem gosta? 
Estar entre bastante gente não é conhecê-los, você passou toda a vida com você e a cada dia  e, ainda, somente se, prestar atenção a si, ao que pensa, faz e ao que sente, e, somente, se for honesto com você quando o fizer descobre algo novo, ou até antigo, sobre si mesmo, e se conhece um pouco mais. Isso é conhecer alguém, começar com você. Parece bizarro, não? Geralmente a gente foge disso.
Se, depois de ter consciência disso, você ainda quer conhecer muitas pessoas, então você realmente o quer. Isso é uma atitude legal, e corajosa. Boa sorte.

Quer conhecer muitos lugares, viajar pra Europa, pra Oceania, que incrível! É bonito mesmo querer ver o mundo, outras culturas, realidades, outros cotidianos, outra paisagem... 
Mas você conhece a sua? Se não conhece, como está com a ilusão que vai saber admirar o que vai ver lá fora? Você vai comparar – não com desmerecimento, mas apenas comparar  a quê?
Você nem viu o quadro novo na recepção do seu escritório, nem viu que há uma rampa para deficientes no prédio, nunca entrou na piscina do seu condomínio, estava muito mau humorado pra ver que os botões de flores da árvore ao lado daquele semáforo pelo qual você passa todos os dias, abriram. E quer viajar o quanto puder. O que você espera ver lá fora, na cidade vizinha, no litoral ou do outro lado do mundo, se seus olhos estão fechados em qualquer lugar? 

Você quer uma carreira fantástica. Quer ser admirado, aplaudido, tudo bem, aplauso geralmente está associado com vitórias mesmo. Não pela vaidade, mas pela conquista, e pelo trabalho por trás da conquista.
Que lindo objetivo, você quer crescer como pessoa. Apenas lembre do equilíbrio, de tanto querer ganhar a vida, esteja atento pra não acabar perdendo-a. 
Concordo que ainda faz algum sentido que faça parte de fases da vida, não ter vida. Ser vestibulando, por exemplo. Você está com pressa, tem certeza do curso que quer, não liga em debater sobre como o sistema funciona, apenas se encaixa a ele e pronto, você está na faculdade, seus pais estão orgulhosos, ufa, você passou, vai ser alguém na vida, agora pode descansar, olhar o azul do céu, sorrir enquanto sente o cheiro do almoço de domingo sendo preparado, que fome, está quase pronto. 

Parece dramático falar assim, não? Pois é, tudo que é falado desse jeito, aberto, que tenha a ver com sentimentos acaba parecendo assim hoje, a gente não está acostumado a falar dessas coisas. 
Da vida, de família, de nós.

As coisas grandes são as que, por algum motivo bobo – inventado por gente com prioridades egoístas até com si mesmos, por gente que não se permite  chamamos, hoje, de pequenas. Aliás, são elas que são incomuns de se fazer, no fim das contas, elas é que são desafios.

Ser uma pessoa verdadeiramente grandiosa, está em ter coragem para dar existência, importância, a essas pequenas coisas, está em se dispôr a dedicar-se fazê-las bem. Só alguém grande vê beleza onde quase ninguém vê, a gente já sabe que vemos as coisas não como são, mas como somos, quanto maiores formos nas coisas pequenas, maior vai ser o nosso mundo, que, na realidade, é tão pequeno.



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