Moravam, numa casa engraçada, três artistas circenses. Eles gostavam de jazz, comida italiana, filmes nacionais, praia, chinelos de dedo e de receber outros amigos artistas em seu lar, nas tardes de domingo. Eram esses artistas, o Bobo, o Palhaço e o Malabarista. E eles eram assim:
O Bobo vivia perguntando o porquê de os problemas que os outros dois tinham em suas vidas existirem em suas vidas, exigindo soluções imediatas, lógicas, claras – com tom condenatório, exigia respostas sobre as questões de coração e vida dos demais, enquanto ele vivia fugindo de estar diante da busca das próprias – ele tinha medo de ser Ser Humano, o Bobo não gostava quando alguém demonstrava que o enxergava com o coração ou lhe dava atenção, ele ainda estava aprendendo a reagir a simplicidade, bondade, gentileza, a uma intenção só. De alguma forma, isso o deixava constrangido e ele procurava repelir essas coisas. Já o Palhaço, estava sempre com alguma piadinha, o que podia incomodar os mau humorados, mas estava sempre procurando ver o ridículo de cada situação para rir um pouquinho dela e solucionar a vida com mais humor – era o que ele reconhecia de amor.
Mas esse Palhaço... Ah! Se importava tanto com seus dois amigos, que nem dava espaço e tempo pra que eles mesmos pudessem se importar com as próprias vidas, estava sempre ali, beirando a margem de seus dias, espreitando algo para dizer, sem filtro algum. E, adivinhe o pior? O fazia com toda a boa intenção! O Palhaço os punia, abrindo as portas dos quartos de manhã, como quem diz que não há tempo a perder, quando, na realidade, não havia tempo sendo perdido se existe a veracidade no que diz que cada um tem seu próprio tempo. Ah! Aquele amigo Palhaço, ele não entendia mesmo...
Os três eram pessoas perfeitamente imperfeitas, cada um tinha os seus pecados. O que os fazia divergir era que, enquanto o Bobo e o Palhaço ficavam questionando e tentando impor mudança ao que viam como defeitos em seus companheiros, o Malabarista ficava calado. É que ele já agia de outra forma, tentava entender os outros dois e ser carinhoso com ambos, mas quase nunca dava certo.
O Palhaço, por vezes, aceitava seu carinho sincero e sutil, mas o Bobo... Ah, o Bobo só ficava fazendo o que sabia de melhor, se fazer de bobo!
O Malabarista tinha compreensão que a autocrítica pode ser muito dura e que não é todo mundo que se aceita de coração – e de peito aberto, pra quem quiser ouvir – o que, naquele momento, realmente é.
O pecado do Malabarista era querer ser malabarista, as pessoas sempre interferiam achando que podiam julgar com exatidão – ah, e claro, com, também, toda a razão do mundo – estarem certas sobre ele estar errando muito com si mesmo ou não estar sendo o que deveria ser. Oras bolas, dizer pra outra pessoa além de para a figura no espelho que ele vive sua vida errado... Era o tipo de prepotência que o Malabarista achava engraçada! Como esbravejar com uma pessoa que não tem olhos pra própria vida ou pra quem – naquele momento, e realmente – é?
Oh céus! Só não sendo um pouco palhaço pra não rir disso...
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