Com o cappuccino quente nas mãos, numa tarde de ar monótomo e tranquilo em que estava chovendo, lembrei daquela noite, em que, deitados na sua cama, no escuro, a gente olhava um pro outro.
Lembro que você sorriu pra mim, e, lembro também, quando sorriu, mantive a mesma feição – calma e séria – mesmo já tendo te devolvido e dado tantos sorrisos, naquele instante daquele dia, continuei só te olhando.
Passou um tempo. Depois de todos esses anos, três, sozinha num quarto há quase uma milha do primeiro cara que me acompanhou pelas ruas de mãos dadas, imersa na lembrança, me peguei sorrindo pra parede.
Finalmente sorri pra você de volta.
Estava morto, gelado, pálido – o amor morreu, deixei ele partir. Estava aquele coração, que batia por você, desmantelado, e, bem, isso não era mais ruim.
Coração esse, morto, pois só vivia e bailava voraz e alegremente no passado, onde ele começou a bater com mais carinho quando pensava em você.
E estava morto pois, agora, se sentia saudade. Mas só saudade, não havia o que me indignava e fazia espernear, como criança mimada. É que já não havia mais nada que se precisasse aceitar ou que se queria nas mãos. Mais precisamente, nos braços.
Minhas lembranças onde seu olhar, beijo, e cheiro se fazem presentes, podiam descansar em paz agora.
Enrolada, no cobertor fino e macio sobre a própria cama, olhei a xícara, que tinha pouco menos que um bom gole, e que, mesmo quase vazia, ainda se mantinha quentinha.
É, olhei o objeto entre minhas mãos, ele me era familiar a uma história que tive com certo alguém.
Na xícara quase não tinha mais o que beber, eu não tinha mais nada pra degustar, ou só tirar, dali.
Sem nenhuma prova de que existiu um cappuccino la dentro senão as sutis marcas de espuma na borda, finalmente criei coragem pra esvaziar completamente aquela antiga xícara, e tomar o singelo último gole, gole pequenininho – mas gole que, mesmo pequenininho, ainda existia pra beber.
Era a despedida serena e sincera que faltava pra fazer, aquela que você só tem que admitir pra si mesmo.
Em um instante seguinte, virando o rosto pro espelho em frente a cama, me flagrei com um acessório a mais – bom, eu pelo menos não costumo achar que ele faz falta no meu dia a dia – um fino bigode branco. Olhei o espelho. Me olhei.
Sorri de volta, e dessa vez foi pra mim.
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