Sentada no restaurante, lá pelas 11:30h, diante do próprio prato, ela almoçava sozinha.
Ergueu o olhar para o que estava ao seu redor, viu muitos pais com seus filhos e filhas.
Em algumas mesas, só as mães com seus pequenos, em outras, só os pais, em, ainda outras mais, toda a família dos três ou quatro indivíduos – o clã todo reunido.
Viu um menininho fazendo caretas para a mãe, enquanto essa retribuía a brincadeira, dando risada.
Observando eles, assim de longe, começou a pensar no quanto é importante ser mãe ou pai.
Importante, pois é. A tendência – não regra – é crescer e endurecer, ter um filho traz toda a brincadeira, pureza e alegrias simples de volta.
Sim, responsabilidade e maturidade, com certeza, mas com leveza, doçura, meiguice.
A ingenuidade aparece de volta.
Traz pros pais infância, adolescência, jovialidade – juventude. Mas por uma outra ótica, deixando os pais, claro, em outro papel diante dessas fases.
Dessa relação, sei sobre a parte de ser filho, no meu caso, filha. É um pouco mais complicado que ser ou ter filho, isso sei também.
Quantas vezes não ouvi meus pais me comparando a eles mesmos quando tinham a minha idade...
Ser pai deve fazer a gente aprender tudo de novo sobre algumas coisas da vida, mas dessa vez – como pais – com mais sabedoria, compreensão e amor. Os olhos devem ser mesmo outros.
Segundo a sociedade, o que não inclui só o lado de fora de casa, os pais são as pessoas que mais nos amam no mundo.
Quando eles dão um conselho errôneo ou fazem algum comentário precipitado – qualquer fala que em algum momento não caiba – sério, eles realmente tentaram acertar.
A gente, filho, julga muito os nossos pais.
Mesmo não admitindo – as vezes nem pra nós mesmos – temos em nossos pais uma figura tão forte de heróis, onipotentes e pessoas incríveis, dessas de se admirar, que quando eles erram e se mostram humanos como a gente, ficamos surpresos, e as vezes até nos negamos em acreditar na – natural – existência da falha.
"Não, não é possível, a mãe fez isso por mal..."
"Ah o pai não ia fazer isso por falta de atenção, ele não liga!"
Se a gente soubesse o que é ser pai quando somos filhos, íamos compreendê-los muito mais. O problema nas relações de pais e filhos (desconsiderando e deixando de abordar tipos e diferenças de personalidades e outras divergências quaisquer, como um pai liberal ter um filho conservador ou vice versa, por exemplo) geralmente é esse, os pais sabem o que é ser filho ou filha, mas não param pra pensar que, além de não precisar ser igual pra nós ao que era ser filho pra eles, nós não temos vivência alguma de o que é ser responsável pela vida, criação e formação de alguém.
Nós, filhos, não sabemos como é trabalhoso, pois independente dos muitos prós que existem, ser mãe ou pai ainda é ser responsável por uma vida, ainda é amar incondicionalmente.
E amar incondicionalmente é se importar de todo o coração. Para quem é pai, isso não deve ser leve quando seu filho não passa por momentos bons.
Nós, tanto pais quanto filhos – seres humanos – somos tão egoístas que tudo que não compreendemos com obviedade nos repele, fazendo-nos enxergar a pior das intenções onde existe a melhor. Mal compreendida, mas a melhor. Quanto mais a gente entender que cada um vai manifestar um mesmo sentimento de maneiras diferentes, cada um com sua forma, mais vamos ver como existe amor no mundo, e dentro de casa.
Nessas horas, que a gente fala de assuntos do coração, é um privilégio ter – pois os bons estão vivos ainda, mesmo depois de mortos, pois, eternizar-se, é uma questão de viver com amor – artistas que entendem de amor, se a gente parar pra ouvir com atenção, eles começam a ajudar a gente a entender também.
Legião Urbana – Pais e filhos
Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você,
O que você vai ser quando você crescer.
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