terça-feira, 19 de maio de 2015

Quando só estamos vivos no passado da vida de alguém, pra eles tudo que seremos são memórias.

Acordada quinze minutos antes de o despertador tocar e convidá-la de volta pro cotidiano e pra rotina, a morena sentou na cama.
A manhã estava calma, mansa e leve – ela adorava esse instante do dia, tudo começando de novo, gente acordando devagar, névoa entre os prédios, orvalho. Cheiro de café.
Mas,
mesmo com o momento que geralmente ela apreciava gostosamente
mesmo com o semblante sonolento
mesmo com as madeixas entrelaçadas e o figurino composto por calcinha e uma largona camiseta de algodão, nada estava assim tão calmo.
Abandonando o olhar da janela, olhou a parede se perguntando, com bastante franqueza e pouca nenhuma – etiqueta que porra foi essa?
Sozinha no quarto, lembrou do sonho com ele na noite anterior, e aí, de dia, soube de uma manifestação dele a seu respeito, que curioso. Ah, manifestação cuja visão dele era de que ela ainda era a mesma menina daquele tempo.
É, que curioso. Começou a pensar em tudo que tinha acontecido desde que eles não se falaram mais. É estranho aceitar que tudo que a gente pode se tornar pra alguém é uma memória, que as vezes a pessoa eterniza, nos congela daquele jeitinho que éramos e lembra pra sempre da gente assim. Acho que é isso que desencadeia saudade, a ideia de que ainda tem muita coisa igual naquele alguém que – por te dar uma palheta mesmo você não tendo violão, deixar aquele cheiro gostoso no seu travesseiro, ou ter tido paciência e afeto com você naquela semana de TPM –  de alguma maneira, por algum motivo, foi daquelas pessoas que te deixam com saudade. 
Ah se todo mundo soubesse o quanto ganha alguém com gestos singelos... 
Logo, vira especial. E gente especial ganha importância dentro de nós.
Porém, falando das memórias, bom, é fácil mudar elas. Editar, aumentar, melhorar, apagar, se iludir, esquecer, tudo pra deletar o que foi verdade pros dois, que é tão simples. A gente complica demais. Que besteira a nossa.
Ele muito possivelmente não fazia mesmo ideia do quanto ela tinha mudado, provavelmente por que ele ainda era o mesmo, ou porque ele achava que só algumas pessoas mudam, e não todas – como acontece. No dia que ele entendesse que todo mundo muda – e que mudar ainda é ser você mesmo e fosse começar a pensar que ela, que também era todo mundo, não era a mesma, talvez nem pensasse mais nela.

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