La vie en rose tocava num volume quase inaudível dentro do carro azul claro, desbotado. Não era exatamente por que o volume estava no mínimo, na verdade, era o motor e o vento que vinha lá de fora que abafavam o som da música francesa.
Mesmo com as mãos no volante, ele desviou o olhar da estrada vazia, virou o rosto pra direita, encontrando o rosto dela.
Ah, aquele rosto. Ele se impressionava com como ela podia ter várias faces, quando ela fazia o próprio rosto de tela em branco – pintando os lábios de lilás ou rosa pastel, alongando os cílios e levando preto para os olhos – ele se via diante de uma mulher, séria, mas indiscutivelmente jovial. Face diferente da que ele via de manhã, juvenil e doce, quando a deixava dormir, de rosto e corpo nu, e ia compor na cozinha.
Mas os olhos eram sempre os mesmos, escuros e ainda assim tão claros, pareciam enxergar mais do que o próprio reflexo quando encontrava sua imagem ao olhar nos olhos dele. Ela era a garota dele, e isso não invalidava pertencer a si mesma.
Era quase metade da madrugada, eles dirigiam pra chegar em um lugar novo.
Naquela noite, ela vestia um shorts jeans, regata preta de alças finas – fininhas – e um kimono cor de areia, com grandes rosas azuis e vermelhas. Vestia um sorriso de canto, também, quase pronto pra desabrochar um riso sem motivo.
Ele concluiu, era hora de dar um tempo, pro motor e pra eles.
Pararam a caminhonete na beira da estrada. As 3h da manhã, o mundo
dormia e o teto era um imenso tapete estrelado, trocaram os assentos aveludados por asfalto e relva, se olharam.
A gente sabe que encontrou alguém legal quando gosta de ficar em silêncio do lado dela, e, ah... Eles viam o valor disso.
Sortudos deles, eram felizes – e sabiam.
O riso dela desabrochou, e, sentados bem pertinho um do outro, o perfume dele mexia com a cabeça dela. E fazia ela querer mexer as próprias mãos, e todo o resto.
Ele era solto, e sua forma serena de ser era tão espontânea que pra ele, prisão seria ser um cara agitado. Prisão seria ser e agir como quem ele não era, ele se sentia mais livre quando não se importava em mostrar pra alguém a real e leve existência da sua liberdade.
Ela amava isso nele.
Ele reagiu ao riso dela com uma expressão calma e afetuosa, ele a olhava com um carinho sincero a ponto de não precisar tocá-la pra que ela entendesse que era admirada.
Ela pegou suavemente o seu queixo, e a vontade – intensa, que quase deixava o ar palpável – que ocupava aquele espaço entre os sorrisos, se transformou em beijo.
Entre intervalos, ao olhar pra ele, abaixou devagar o kimono sobre um dos ombros – antes, ambos cobertos pelo pano cheio de rosas.
Quando ele desviou o rosto pro outro lado com uma risada gostosa, ela soube que sua intenção havia ficado clara – e sido bem recebida.
Ele levantou, estendendo uma das mãos para a morena, que lhe entregou a dela.
E, depois, o coração também. Mais uma vez.
Aliás, por ele, valia a pena deixar o batimento acelerar.
Logo, era como se a cena voltasse, ouvia o ronco do motor, o mínimo som da voz de Edith Piaf, e o vento bagunçava os cabelos, refrescava as bochechas – agora, quentes – coradas.
Mesmo com as mãos no volante, ele desviou o olhar da estrada vazia, virou o rosto pra direita, encontrando o rosto dela.
Ah, aquele rosto.
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