Ela acreditava em reencarnação. Acreditava que, antes de descer de alguma nuvem lá do céu e chegar na terra, que pode ser um pouco de céu ou inferno, as coisas se acertavam sobre como seria a vida que ela ia ter, aquela vida, o que ela precisava aprender, ensinar. Tinha fé de que escolheu passar pelo que passou e pelo que ainda passaria na sua – esperava ela – longa e intensa vida. Intensa ela já sabia que era.
Entendia que algumas coisas boas vinham disfarçadas de males mas ao fim das contas traziam condições, circunstâncias e pessoas melhores, pequenas grandes lições pra ela (como também para toda pessoa, de acordo com a fé que ela tinha na veracidade dessa possibilidade de existência).
Mas, até então, uma escolha não entendia. Não entendia porquê escolheu sentir falta dele.
De madrugada, ela acordou suavemente de uma maneira aleatória, após um sonho com aquele cara legal que ela havia gostado tanto. O cara que deu uma palheta pra quem não tinha um violão, junto com um bobo e bonito pedaço pequeno de coral. Ela ainda os tinha guardados.
Foi estranho. Quando ela acordou, seus pensamentos eram só ele e aquela situação entre os dois. E o motivo de ter acabado, motivo que, até aquela madrugada, ela não tinha enxergado.
Ficou tudo óbvio e muito claro. Como se alguém tivesse simplesmente posto um filme na cabeça dela explicando, recordando, aqueles detalhes pelos quais ela passou e não viu. Entendeu rápido o que foi dado pra ela. A falha que desencadeou aquela situação que, sem dramas ou último beijo, virou fim, tinha sido dela. E foram duas.
Nem tinham sido grande coisa, isso era o que a deixava mais incomodada. Tudo podia ter sido (muito bem) resolvido, era simples e pequeno perto de todas as outras coisas tão boas que eram maioria entre a convivência deles.
Ela era apaixonada por aquele tonto. Ele foi um amigo leal, sem segunda intenção antes da intenção de ambos se tornar outra. Podiam – passavam – passar horas conversando ou fazendo nada juntos, era agradável. Qualquer lugar, mesmo pobre de grandes atrativos, era uma boa, ele tinha senso de humor e, aliás, um corpo lindo. E, ai ai, muito bons beijos. Ela ficava calma do seu lado e se sentia a vontade com ele em qualquer lugar.
Adorava o cachorro dele.
Sentiu-se diante de uma incógnita.
Ficou com a expressão chorosa.
"Por que agora?"
Ela entendeu tudo quando não tinha mais nada pra fazer, já estava à mais de meia milha de distância dele, não era pra ser. Chateada pela saudade que ainda sentia, mas conformando-se, a menina entendeu todo o contexto, e agora ela, em partes, sabia o porquê da sua escolha, feita em algum lugar bonito lá em cima.
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