Olhou pela janela – nessas horas era uma vantagem morar no sexto andar – aquelas luzes lá longe, estranhamente alinhadas de uma maneira aleatória que caiu tão bem, que vista.
A cabeça transbordava com mil pensamentos, os ouvidos ficavam atentos ao silêncio do começo da noite, a mão estava coçando, o corpo inquieto, sentiu um tremor dentro de si mesma, ela queria agir. Queria ser ela. Com tudo incluso – é, tudo incluso, incluindo o empenho nos estudos. Não era muito a cara dela, mas era fundamental pra dali um ou dois anos, ela estar onde queria, fazia parte do ser ela.
Que merda, agora tudo que ela queria era estar enroscada com algum cara cheiroso – é, primeiro vem o cheiro, depois a beleza – por aí, estar dirigindo noite adentro num carro carismático – podia ser um fusca, uma caminhonete antiga com um bom motor – pra ver lugares que pouca gente conhecia, viajar pra cidade natal e chamar uns amigos pela janela do quarto, partir pra um grande salão com música alta e rostos desconhecidos com quem dançar. Viajar de novo, juntar todo mundo, encontrar uma casa grande, com piscina, fazer uma festa pra comemorar o quanto eles podiam agir estupidamente aquela noite.
Todo mundo tem vontade de não ser quem é as vezes.
Não ter a idade que tem, nem os deveres, o pouco dinheiro, morar na cidade, bairro, estado, que mora.
E isso não tem nada a ver com não amar a vida, ou ser insatisfeito com o cotidiano, com como as coisas vão indo. Querer esses momentos intensos sem motivo algum não tem a ver com rebeldia, nem com fuga.
Fuga seria não admitir esse desejo. E, chega mais... Vou sussurrar pra você... Querer isso de vez em quando não tem problema algum.
Tem tudo a ver com ser jovem.
Com querer um amor adolescente que dure pra sempre.
Com acreditar em pra sempre.
Com rir de si mesmo.
Com confiar com facilidade nas pessoas.
Com não julgar os outros pelos seus momentos.
Com querer que seus amigos estejam sempre por perto.
Com desejar que o colégio nunca acabe.
Com saber que vai sentir falta de morar com os pais, mesmo as vezes não gostando de receber tanto cuidado e atenção.
Com pensar que, você, garoto, do lado da menina mais bonita da sala, pode acreditar que você pode ser imortal.
Com se sentir bem, mesmo no ambiente menos a sua cara, porque você tem aquele amigo do lado, se sentindo igual – mal, se estivesse sozinho (mas ele pode contar com você).
Tem tudo a ver com um dia de folga de quem você é hoje, de onde está, de quantos anos tem.
Tem tudo a ver com um dia longe de você, e ainda sendo você mesmo.
Tem tudo a ver com se sentir infinito.
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